Sunday, October 24, 2010

As variedades da língua Tetun


No I Congresso Internacional de Dialetologia e Sociolinguística, que aconteceu de 17 a 21 de outubro de 2010, em São Luís, apresentei um trabalho apresentando evidências sociolinguísticas para a classificação das variedades da língua Tetun.

A comunicação intitulada A língua Tétum de Timor Leste e suas variedades é um trabalho introdutório que procura analisar a língua Tetun seguindo a teoria da Sociolinuística Variacionista. No nível fonológico, verifiquei a ocorrência da oclusiva glotal, do glide /w/, e a variação na realização da oclusiva velar /k/, da fricativa labiodental /f/ e das consoantes palatais de origem lusófona nas diferentes variedades da língua. No nível lexical, verifiquei a ocorrência dos empréstimos lusófonos na produção oral e escrita do falante leste-timorense.

Ainda, no nível sociolinguístico as influências encontradas foram o grau de escolaridade, a língua materna, a idade e o sexo do falante. Como conclusão, apresenta uma proposta de dividir a língua Tetun somente em duas variedades: o Tétum-Térik e o Tétum-Praça, enquanto as demais subdivisões estariam em um nível hierárquico inferior ao nível das variedades, que chamei de subvariedades, como o Tétum-Dili, Tétum-Belo, Tétum-Fehan, entre outros.

Em breve este trabalho será publicado, e assim eu escreverei outro post ao leitor avisando sobre a publicação.

    

Monday, October 11, 2010

Alguns Agradecimentos!


Neste post apenas registro alguns agradecimentos a certas pessoas que nos ajudaram durante a vida profissional, acadêmica e pessoal, assim como alguma contribuição ao nosso blog.

Primeiramente, agradeço as contribuições recentes de João Paulo Esperança, que além de possuir publicações importantes sobre linguística de Timor Leste, forneceu para o nosso blog importantes comentários aos posts. Uma linguista que contribui de maneira significativa também com seus estudos linguísticos e em comunicações pessoais comigos via e-mail é Catharina Williams-van Klinken.

Os vários colegas e alunos leste-timorenses, que me ensinaram pacientemente suas línguas, fornecendo traduções, tirando dúvidas etc. Entre eles, posso citar Domingos dos Santos e sua esposa Judite, Eugênia Neves, Manuel Ferreira, Nuno Gomes, e os vários alunos da UNTL, como: Santiago, Mário, Domingos, Natalino, Teresa, Terezinha.

Aos professores (qua atuaram em Timor Leste) e amigos João Cleto e Jessé Fogaça, que fornceram a mim várias ideias e bibliografias fundamentais de difícil acesso.

Finalmente, a família é deixada por último, mas é a mais especial. Fica aqui registrado o mais profundo agradecimento a minha mãe, Profa. Elizabete, e a minha noiva, Profa. Aurelie.

Um muito obrigado a todos esses mencionados aqui, que de alguma forma contribuíram para a contrução do conhecimento!

   

Saturday, October 09, 2010

O conflito entre o ensino e as variedades da língua portuguesa em um país em reconstrução: o caso de Timor Leste


Recentemente, discuti as dificuldades enfrentadas pelo professor de língua portuguesa em Timor Leste, assim como os métodos e o material didático utilizados em sala de aula. Ainda, mencionei também os conflitos entre as variedades do português existentes no ensino da língua.

Essa discussão foi apresentada em forma de comunicação no IX Congresso da Sociedade Internacional Português Língua Estrangeira (IX CONSIPLE) realizado de 6 a 8 de outubro na Universidade de Brasília (UnB).

A comunicação intitula-se O conflito entre o ensino e as variedades da língua portuguesa em um país emreconstrução: o caso de Timor Leste e o resumo está disponível no caderno de resumos no seguinte endereço: http://www.siple.org.br/images/2010/ix_congresso/Cadernoderesumosrevisado1.pdf

Por motivos de praticidade reproduzo também o resumo abaixo:

Resumo: "A língua portuguesa é a língua oficial de Timor Leste, juntamente com a língua Tétum, em sua variedade Tétum-Praça, desde a constituição de 2002. As dificuldades de ensino, porém, permanecem até hoje por diversos fatores, entre os principais podem ser citados: uma política linguística por parte da coroa portuguesa que limitava o ensino de língua portuguesa somente aos régulos tribais leste-timorenses e seus descendentes, que se estendeu desde o século XVI ao século XIX; uma invasão indonésia recente, de 1975 a 1999, que proibiu o uso da língua portuguesa; a presença portuguesa efetiva no território sempre ter sido irrisória, reduzida a apenas alguns cidadãos portugueses".

"Nesta comunicação serão analisados pontos distintos que envolvem o ensino de língua portuguesa em Timor Leste. Primeiramente será discutido o contexto histórico da língua portuguesa em Timor Leste. Em seguida, será analisada a situação linguística atual do ensino de português, procurando identificar algumas dificuldades do ensino e os fatores que as causam. Ainda, algumas considerações sobre o planejamento linguístico dos últimos anos do governo leste-timorense serão feitas, pois esse planejamento linguístico possibilitou o conflito existente sobre as variedades da língua portuguesa ensinadas, já que há professores de diversas nacionalidades ensinando português, entre essas nacionalidades destacam-se a atuação dos professores portugueses, brasileiros, lestetimorenses, e até de países não lusófonos, como Cuba".

Friday, October 08, 2010

Elementos para o estudo da ecolinguística de Timor Leste

Na mais nova edição da revista Domínios de Lingu@agem, v. 7, 2010, está publicado um artigo de minha autoria intitulado Elementos para o estudo da ecolinguística de Timor Leste. Este artigo é apenas o resultado preliminar e inicial das pesquisas ecolinguísticas que comecei a realizar sobre Timor Leste.

Ele faz uma introdução sobre o conceito de ecolinguística que me baseio, assim como os princípios de análise que utilizo dessa aboradagem. Em seguida, o artigo discorre sobre a população (P), o território (T) e as línguas (L) de Timor Leste. Esses elementos população (P), o território (T) e a língua (L) são considerados por Couto (2007) como a Ecologia Fundamental da Língua. Depois, analiso brevemente o que já foi publicado sobre ecologia das línguas de Timor Leste. A conlusão do artigo deixa em aberto o espaço necessário para estudos específicos vindouros que esgotem as subáreas distintas da ecolinguística e também as pesquisas futuras que serão feitas.


Referência:

Couto, H. Ecolingüística: estudo das relações entre língua e meio ambiente. Brasília: Thesaurus, 2007.


Friday, September 24, 2010

Evidências de contato linguístico em Galolen


Em um post anterior, intitulado Palavras inicias sobre o status do Galolen no século XIX
(http://easttimorlinguistics.blogspot.com/2010/04/palavras-iniciais-sobre-o-status-do.html),
comentei a respeito da língua Galolen, língua materna de origem Austronésica com seus falantes localizados principalmente no Distrito de Manatuto,  e uma mudança em seu status sociolinguístico que ocorreu durante o século XIX. A modificação desse status deu-se por vários fatores, entre eles: os portugueses serem expulsos da capital Lifau (atual Oecussi) em 1769, os freis dominicanos terem se estabelecidos em Manatuto e elaborarem vários estudos e traduções em língua Galolen. Para uma lista completa dessa documentação, ver Sá (1961).

Esses acontecimentos históricos foram notáveis, pois além da língua Tetun somente o Galolen sofreu algum tipo de ascensão sociolinguística no cenário colonial. Tal processo interessa aos estudos linguísticos por vários motivos.Um deles consiste nos estudos dos contatos linguísticos sofridos pelo povo falante de Galolen e as repercussões que esses contatos tiveram na língua.

Dalgado já no início do século XX (Dalgado 1936) já havia identificado na língua Galolen mais de 400 palavras de origem portuguesa, consultando a documentação do Pe. Manuel Maria Alves da Silva, elaboradas entre os anos de 1888 e 1905. Hull (2002) observara também que o povo do Distrito de Manatuto possui uma cultura voltada para o mar, fazendo com que esse povo sofresse contatos desde tempos anteriores a chegada dos portugueses. Tais evidências encontram-se presentes na maior parte do léxico da língua, que possui uma série de campos semânticos especializados em relação à pesca, navegação, comércio, alimentação etc. O mesmo foi constatado por mim em meu artigo introdutório sobre as línguas de Timor Leste (Albuquerque 2010), intitulado As línguas de Timor Leste: Perspectivas e Prospectivas, comentado no post anterior (http://easttimorlinguistics.blogspot.com/2010/09/as-linguas-de-timor-leste-perspectivas.html).     

Continuando minhas investigações sobre esses contatos, verifiquei evidências na documentação citada acima de Sá (1961) de que havia uma certa quantidade de indivíduos de origem indo-portuguesa, consequentemente falantes de alguma variedade do Crioulo Indo-Português, trabalhando em certas propriedades em Timor Leste cujos donos eram portugueses. Ainda, em Castro (1943) o autor elenca no decorrer de seu livro uma série exemplares da flora, da alimentação e de outros itens da cultura material trazidos de Goa para Timor Leste e esses conceitos foram incorporados ora pela língua Galolen, ora pela língua Tetun. Entre esses itens há: flores de sapato 'tipo de planta que se usa para extrair uma tinta preta', cabaia 'tipo de vestimenta longa usada pelos homens', enrotar (e suas variantes) 'consertar cadeiras e sofás; tipo de palmeira', bidos (em Goa guidos) 'dança dos cristãos', sarasa 'traje específico das mulheres', ghi 'manteiga da Índia'.

Dessa forma, pode-se concluir que houve um contato maior entre os falantes de Crioulo Indo-Português com o povo Galolen. As evidências lexicais apontadas acima ainda são iniciais e provisórias para se afirmar mais a respeito da natureza desse contato analisado brevemente aqui. Porém esses são passos iniciais que já estão sendo dados em direção a um melhor conhecimento da situação de contato de línguas em Timor Leste.  

P.S. Fiz uma correção no texto, conforme João Paulo Esperança sugeriu-nos. Tais sugestões encontram-se também nos comentários. Agradeço muito ao colega João Paulo pela contribuição!

Referências:

Albuquerque, D. B. 2010. As línguas de Timor Leste: Perspectivas e Prospectivas. Língua e Literatura 27: 313-335.

Castro, A. O. 1943. A ilha verde e vermelha de Timor. Lisboa: Agência Geral das Colônias.

Dalgado, S. 1936. Influence of Portuguese Vocables in Asiatic Languages. Barado: Baptiste Mission Press.

Hull, G. 2002. The Languages of East Timor. Some basic facts. Disponível em:

Thursday, September 23, 2010

As línguas de Timor Leste: Perspectivas e Prospectivas


Recentemente, publiquei um artigo na revista Língua e Literatura da USP. O artigo intitulado As línguas de Timor Leste: Perspectivas e Prospectivas oferece ao leitor um panorama atualizado das línguas de Timor Leste, elaborado com base em diversas visitas pelos distritos leste-timorenses durante o período de  agosto de 2008 até maio de 2009. O único artigo que tenho conhecimento que oferece um breve panorama sobre as línguas de Timor Leste é de autoria de Hull (2002).

O artigo oferece também oferece, além das informações linguísticas sobre algumas línguas, números de falantes e considerações sobre a ecologia das línguas, alertando a respeito das línguas em riscos de extinção e da necessidade da formação da linguística leste-timorense.  

Segue o Abstract:

The present paper intends to present to the Brazilian reader an introduction to East Timor linguistics studies. In that case, it will be briefly discussed East Timor spoken languages with its genetic classification (sec. 2), followed by some historical information (sec.3). Finally, I argue that only a few researches on East Timor languages have been elaborate, and there are a lot of studies that should be conducted on different linguistics areas.


O artigo pode ser lido e baixado (em uma versão pré-final) pelo meu perfil no Academia.eduhttps://www.academia.edu/2121388/As_linguas_de_Timor_Leste_perspectivas_e_prospectivas.

Referência:

Albuquerque, D. B. 2010. As línguas de Timor Leste: Perspectivas e Prospectivas. Língua e Literatura 27: 313-335.

Hull, G. 2002. The Languages of East Timor. Some basic facts. Disponível em:


Tuesday, August 10, 2010

Peculiaridades prosódicas do Português falado em Timor Leste

As línguas nativas faladas em Timor Leste não são as únicas espécies que ainda estão a ser estudadas, o português falado pelo cidadão leste-timorense vem revelando, segundo minha análise, diversas informações importantes para o estudo de contato, aquisição e variação da língua portuguesa pelo mundo.

No primeiro artigo que produzi sobre a variedade da língua portuguesa falada em Timor Leste, que chamo apenas de Português de Timor Leste, ou PTL, intitulado Peculiaridades prosódicas do Português falado em Timor Leste, discorro sobre algumas propriedades fonético-fonológicas únicas do PTL, o que já é evidência sufuciente para classificar as realizações linguísticas do falante leste-timorense como uma variedade própria e não erros ou problemas de aprendizagem, como vem a ser feito pela grande maioria de professores e/ou linguistas residentes no país.

Seguem abaixo o link para o download do artigo que foi publicado na ReVEL e o resumo do artigo:

Resumoo presente artigo tem o objetivo de apresentar evidências prosódicas para comprovar a existência de uma variedade da língua portuguesa falada em Timor Leste. Para tanto, o artigo apresentará também informações sócio-históricas do contato lingüístico sofrido pelo português na Ásia no decorrer do período da colonização. As chamadas “peculiaridades” são vistas aqui como traços particulares da gramática desta variedade do português.



Sunday, July 11, 2010

Sobre as consoantes palatais em Tetun Prasa


As consoantes palatais não fazem parte do inventário fonológico das línguas de origem austronésicas. Nas línguas de Timor Leste, elas são de origem lusófona e entraram somente através dos empréstimos lexicais para o Tetun Prasa, e, por sua vez, do Tetun Prasa para as demais línguas.

Em uma análise fonológica recente que fiz do Tetun, seguindo uma abordagem ecolinguística (Albuquerque, em preparação), verifiquei que essas consoantes palatais, a saber: ʃ, ʒ, nhlh (não consegui formatar as duas últimas fontes do IPA para o blog, por isto represento pela grafia), não são produtivas na língua, não aparecendo em nenhuma palavra nativa, assim como não são realizadas pelo falante leste-timorense.

Os fones palatais, como classifico-os, ʃ, ʒ, nh e lh são realizados /s/, /z/, /n/ e /l/ respectivamente. Dessa forma, limitam-se ao léxico lusófono emprestado e relativo a conceitos culturais e modernos exteriores à cultura tetumófona, como em vocábulos:

xá, xapeu, xave;
janela, justisa, jornál;
bañu, señór, viziñu;
evanjellu, jullu, relijiaun.

Logo, não há evidências linguísticas suficientes para classificá-los como fonemas que fazem parte do inventário fonológico da língua Tetun, em sua variedade Tetun Prasa, ou Tetun Dili, como vem sendo feito na recente tradição gramatical do Tetun Prasa: Hull (2002), Hull e Eccles (2001) e Williams-van Klinken, Hajek e Nordlinger (2002).

Referências: 
 
ALBUQUERQUE, D. B. (em preparação). Ecofonologia da língua Tetun: um caso de contato e adaptação.   
 
HULL, G. 2002. Dili Tetum. Sydney/Dili: Sebastião Aparício da Silva Project/Instituto Nacional de Linguística/Universidade Nacional de Timor Lorosa’e.
 
HULL, G.; ECCLES, L. 2001. Tetum Reference Grammar. Sydney/Dili: Sebastião Aparício da Silva Project/Instituto Nacional de Linguística/Universidade Nacional de Timor Lorosa’e, 2001. (Tradução para o português: Gramática da Língua Tétum. Lisboa: LIDEL, 2004).
 
WILLIAMS-VAN KLINKEN, C., HAJEK, J. e NORDLINGER, R. Tetun Dili: A grammar of an East Timorese language. Canberra: Pacific Linguistics, 2002.
 

Saturday, June 26, 2010

Terminologia linguística e gafes!!!

Como afirmei no post anterior http://easttimorlinguistics.blogspot.com/2010/06/hau-koalia-tetun-eu-falo-portugues.html, discorrerei brevemente sobre alguma terminologia linguística a respeito de nomenclaturas como: dialeto, variedade, "língua primitiva", entre outras que são importantes para o estudo ou para o simples conhecimento das questões relativas à língua em Timor Leste.

A definição de língua na linguística é um tanto controversa, já que depende muito da abordagem, metodologia e corrente teórica que o linguista segue, assim como que aspectos das línguas ele pretende investigar. Daí surgem diferentes conceitos de língua, dependendo de quais perguntas (qual investigação) são feitas! Mas, posso afirmar, grosso modo, que a língua é um sistema convencional de certos símbolos portadores de significados com o objetivo de proporcionar a comunicação entre indivíduos inseridos dentro de um espaço geográfico específico e que compartilhem certos aspectos culturais.

Dialeto e variedade são conceitos muito próximos, muitas vezes intercambiáveis. Dialeto trata-se simplesmente de uma variedade regional de uma língua específica, que acaba por se diferenciar ligeiramente na fonologia e no léxico principalmente, como exemplo há a própria língua portuguesa que pode ser considerada a existência de um dialeto brasileiro, um dialeto ibérico etc., o inglês com o dialeto britânico, o dialeto norte-americano, o dialeto australiano, e assim sucessivamente. Ainda, o termo dialeto pode ser aplicado também para um tipo de falar específico a alguma classe social, ou comunidade.   

Dessa forma, não existe nenhuma relação da palavra dialeto como ela é empregada no senso comum com o sentido de "língua primitiva", "língua menor", "forma de falar diferente" etc. Estes na realidade são pré-conceitos de pessoas desinformadas que não conhecem a ciência das línguas, tão pouco se informam antes de falar ou emitir opiniões errôneas, que muitos acabam por seguir e repetir. A linguística ao investigar as línguas indígenas pelo mundo - línguas nativas da América, África, Ásia e Oceania - comprovou que essas supostas "línguas primitivas", "dialetos", entre outros, como costumam a ser chamados, são muito mais complexas que as línguas indo-européias da atualidade, como o português, inglês, alemão, francês e várias outras. Thurston (1979) forjou os termos línguas esotéricas e línguas exotéricas que esclarece essa questão de maneria exemplar. As línguas esotéricas são línguas de alta complexidade estrutura, pois são usadas somente pelos indivíduos da mesma comunidade para se comunicarem entre si, como é o caso das línguas indígenas pelo mundo, já as línguas exotéricas são línguas menos complexas utilizadas para comunicação entre povos de mesma cultura e de diferentes culturas também, como é o caso de nossa língua e outras similares indo-européias. 

Vale lembrar, ainda, que língua franca é uma língua utilizada para comunicação entre diversos povos em siutação estável (sem nenhum com status superior a outro) que possuem línguas diferentes que impossibilitam o processo de comunicação, o caso de Timor Leste esta língua é a variedade Tétum-Praça.

Finalmente, o termo língua oficial consiste em língua, ou línguas, reconhecida(s) pelo Estado a ser utilizada pela comunidade para desempenhar todas as funções jurídico-administrativas e exercer a cidadania em geral, como ter acesso a educação, saúde, emprego, segurança etc. Em Timor Leste há duas línguas oficias: a língua portuguesa e o Tétum (a variedade Tétum-Praça). Língua de trabalho são línguas, ou língua, também reconhecida(s) pelo estado a ser utilizada somente em tarefas burocráticas principais (por isso chamada de "trabalho") como uma opção em comunidades multilíngues onde o falante pode não ter acesso, ou não conhecer, a(s) língua(s) oficial(is) do Estado. Em Timor Leste as línguas de trabalho são inglês e o bahasa indonesia.  

Fica aqui registrado minha indignação em relação a qualquer estudioso que por desconhecimento, falta de informação ou preconceito empregue os termos aqui citados de forma imprópria, pois isto somente tem o objetivo de prejudicar tanto a linguística per se, quanto denegrir os povos autóctones espalhados pelo mundo. Ainda, aqueles que não conheceme desejam ficar sem conhecer e ficam falando "coisas impróprias" por aí (ou seja, falando besteiras!) procurem evitar tantas gafes também, pois isso ficará feio (para não falar, ou escrever, outras palavras!) para quem as fala! Disso pode ter certeza!!! Já para aqueles que desejam se informar, recomendo a leitura de obras introdutórias à linguística e a consulta a dicionários como Crystal (1980) e Dubois (1995).

Referências:

Crystal, D. 1980. Dicionário de lingüística e fonética. Rio deJaneiro: Zahar.
Dubois, J. et al. 1995. Dicionário de lingüística. São Paulo: Cultrix.
Thurston, W. 1979. Processes of change in North-Western New Britain. Canberra: Australia National University. 


Friday, June 18, 2010

Ha'u Ko'alia Tetun! Eu Falo Português!


O livro intitulado Ha'u Ko'alia Tetun! Eu Falo Português! de autoria do Prof. João Cleto do Nascimento é um livro didático para ensinar o Tétum-Praça para falantes lusófonos (a capa da obra encontra-se ao lado) com um prefácio de minha autoria.

Esta obra merece destaque por vários motivos, entre eles: é o primeiro material sobre Tétum (ou qualquer outra língua de Timor) lançado em português do Brasil; nos últimos foi a única obra didática lançada em língua portuguesa; foi fruto de um projeto do autor de ensino de língua Tétum para estrangieros, ainda em andamento nos dias atuais.

No Brasil, as únicas obras publicadas sobre Timor Leste concentram-se em sua maioria nos estudos políticos que defendem certos interesses ideológicos que não valem a pena ser mencionados, assim como não é o objetivo deste post!

Já se falarmos sobre livros didáticos sobre a língua Tétum, em sua variedade Tétum-Praça, o livro mais recente é de Hull (1996), que ensina Tétum-Praça como língua estrangeira para falantes anglófonos. A única fonte anterior para o ensino de Tétum para falantes lusófonos é de Fernandes (1937). Desta maneira, podemos perceber que somente após mais de 70 anos é que surgiu uma fonte atualizada de referência para o ensino de Tétum-Praça para falantes lusófonos.

Vale mencionar também que o Prof. João Cleto do Nascimento reside em Timor Leste desde 2008 e está engajado em um projeto de ensino e elaboração de materiais didáticos sobre o Tétum-Praça. Ainda, como muitas atividades culturais e científicas de valor no Brasil, este projeto é particular do autor que somente recebe apoio institucional de vez em quando!

Recomendo a todos interessados em Timor Leste, em estudos linguísticos e em ensino de línguas a leitura do livro Ha'u Ko'alia Tetun! Eu Falo Português!

No próximo post eu darei uma breve explicação que parece muito pertinente para as questões linguísticas de Timor Leste sobre a terminologia relacionada à língua, dialeto, 'língua primitiva' (seja lá o que isso for...), língua franca, língua nacional, língua oficial e língua de trabalho.

P.S. Acrescento aqui a referência de Hull (2001), conforme João Paulo Esperança gentilmente sugeriu ao nosso blog, no comentário desse post. 
     
Referências:

Fernandes, A. J. (1937) Método prático para aprender o Tétum. Macao: Escola Tipográfica do Orfanato de Macau.

Hull, G. (1996) Mai kolia Tetun: a beginner's course in Tetum-Praça: the lingua franca of East Timor. North Sydney: Australian Catholic Relief and the Australian Catholic Social Justice Council.

_____. (2001) Manual de Língua Tétum para Timor Leste. Wollongong: University of Wollongong. 134p.

Thursday, May 27, 2010

Dili Institute of Technology website



A good website with available publications for download, a lot of usefull information on Tetun, and Tetun language courses for foreigners, in Dili. The link http://www.tetundit.tl/ will be available also at the left section of this blog Important Papers and Related Resources.  

Dili Institute of Technology is headed up by Catharina Willians-van Klinken, who has a list of several linguistic papers on Tetun-Praça and Tetun-Fehan varieties, several of them are available, as mentioned above, at the website section called Publications. There can be found didactic books as vocabularies, language manuals and course book, and linguistics articles related to Tetun registers, among others.

So, I invited everyone to check it out this website and see the good things for yourselves!!! 

P.S. Latelly, my posts are a little slow and I won't updated too much things! But I promise everyone that soon I will come back with more posts and with good stuffs as well!!!

    

Thursday, April 29, 2010

Reestruturação gramatical e as línguas de Timor Leste


As línguas de Timor Leste, além de mal descritas, também apresentam problemas em relação a suas origens e os processos de mudança linguística que sofreram. Muitas vezes são referidas como crioulos (Ethnologue 2009) e até pidgins (Hagège 2002 apud Hajek 2007), e os processos de mudança linguística como 'processo de crioulização' (Hull 2001). Em um trabalho recente, que apresenta um resultado preliminar de minhas pesquisas sobre o contato de línguas em território leste-timorense (Albuquerque 2010), há evidências suficientes para não usar tais termos citados acima, assim como se argumentar a favor da reestruturação parcial de algumas línguas de Timor Leste.

Dois modelos teóricos que são aplicáveis, em um primeiro momento, às línguas de Timor Leste são o de 'aquisição não-nativa' de McWhorter (2007) e o já mencionado 'reestruturação parcial' de Holm (2004). Mas, no entanto, exsitem poucos dados sobre a sócio-história dessas línguas, assim como poucas são as descrições linguísticas disponíveis.

Atualmente, debruço-me sobre este problema, procurando informações sobre a sócio-história das línguas de Timor Leste e também dados linguísticos para verificar nos contatos possíveis adstratos, superestratos e substratos e suas respectivas influências uns nos outros.  

Referências:

Albuquerque, D. B. Contatos lingüísticos em Timor Leste: mudanças e reestruturação gramatical. Comunicação apresentada ao VI Encontro da Associação Brasileira de Estudos Crioulos e Similares, Salvador, 2010.

Hagège, C. 2002. Morte E Rinascita Delle Lingue. Milão: Feltrinelli.

Hajek, J. 2007. Language Contact and Convergence in East Timor: The Case of Tetun Dili”. In A. Aikhenvald & R. Dixon (eds.). Grammars in Contact: A Cross-Linguistic Typology, p. 163-178. Nova York: Oxford University Press.

Holm, J. 2004. Languages in Contact. The Partial Restructuring of Vernaculars. Cambridge: CUP.

Hull, G. 2001. A Morphological Overview of the Timoric Sprachbund. Studies in Language and Culture of East Timor 4: 98-205, 2001.

Lewis, P. (ed.). Ethnologue: Languages of the World, Sixteenth edition. Dallas: SIL International, 2009. Versão online: http://www.ethnologue.com/

Mcwhorter, J. 2007. Language Interrupted: Signs of Non-Native Acquisition in Standard Language Grammars. Nova York: Oxford University Press.

Tuesday, April 20, 2010

Um blog de Linguística Cognitiva


Neste post, tenho objetivo de divulgar um novo blog de interesse da comunidade acadêmica, especialmente aos linguistas que acompanham este nosso blog de Linguística de Timor Leste.

O blog chama-se Cognitiva na Veia e é gerenciado pelo linguista Paulo Jefferson Pilar, doutorando da Universidade de São Paulo - USP, e o link é o que segue:
http://www.cognitivanaveia.blogspot.com/.

Fico muito feliz por essa iniciativa que, em minha opinião, deveria ser mais comum em nosso país, assim como nas diferentes sub-áreas da pesquisa em linguística. A minha postura em relação ao conhecimento é que este deveria ser divulgado e de fácil acesso para um grande número de pessoas. Isto, porém, não vem acontecendo, já que é cada vez mais comum a prática de concentração de conhecimento nas mãos de poucos e também outra prática nociva é a retenção de material e informação.

Então, ficam aqui meus agradecimentos ao linguista Paulo, juntamente com minhas congratulações e disponibilidade a esta bela iniciativa!
  

Monday, April 19, 2010

Equívocos e hipocrisias em abordagens de outras culturas!!!


Em um post recente sobre o programa Globo Ecologia ter Timor Leste como seu tema mencionei uma entrevista do repórter e comentei também sobre o despreparo e o desconhecimento que ronda a televisão e outros meios midiáticos.
(http://easttimorlinguistics.blogspot.com/2010/04/programa-globo-ecologia-em-timor-leste.html)   

Em um comentário a esse post, uma visitante de nosso blog tocou em uma questão interessante: como se aborda uma outra cultura. Ela fez o seguinte comentário (que reproduzo com sua autorização, caso não seja possível e queira retirar tal comentário, por favor, me avise):
   
São cada vez mais comuns, expressões como: “É uma história muito bonita, uma lenda, muito interessante, que revela uma cultura muito forte. ” ou “É um país pequeno, mas muito rico culturalmente”. Questiona-se, em princípio, se um território que se autoidentifica como Nação, seja ela qual for, tem culturas mais fortes e mais ricas. Se há intenção de elevar a Nação em paridade com outras, isto não ocorre, visto que dá margem à interpretação que possam existir culturas fracas e pobres.  

Além de ter sido mencionado o problema de se elevar uma cultura a um status superior, o que leva ao equívoco de se pensar que há culturas que sejam inferiores,  há outros problemas que considero sérios em relação a tal tipo de comentário e-ou abordagem de uma outra cultura. Entre eles menciono a hipocrisia que procura mascarar as misérias do mundo, no caso de Timor Leste a "cultura rica" está definhando por causa de disputas internas e pela desastrosa atuação internacional que é considerada como a salvadora de Timor Leste. É claro que a ajuda internacional de algumas entidades propiciou o desenvolvimento do país, mas atualmente ocorre o que eu chamo de elogio à pobreza: diversos estrangeiros que ganham salários milionários são elevados à imagem de verdadeiros heróis de Timor Leste simplesmente pelo fato de sua posição privilegiada social e financeiramente. Sem mencionar que muitos funcionários estrangeiros com esses salários milionários estimulam a economia do país (eu mesmo no período de 2008 e 2009 que morei em Timor Leste vi muito!!!) investindo nas pricinpais áreas do desenvolvimento econômico: boates, bebidas e prostituição!!!! Então, se a população leste-timorense é educada com o estrangeiro simplesmente o faz pelo fato de querer sair da pobreza que o país se encontra, mas isto é mascarado através de discursos hipócritas.

Ainda, tenho algumas palavras sobre a "cultura rica" de Timor Leste, que nada mais é do que um conjunto de traços da cultura material e imaterial de origem Austronésia que se encontra presente nas ilhas vizinhas, principalmente às pertencentes a Indonésia, como Larantuka, Molucas etc., e que possui ligeiras modificações devido ao fato de algumas ilhas terem sido povoados em períodos distintos, assim como umas apresentam ainda uma presença de origem papuásica e outras não. Como mencionei acima, tal cultura vem se perdendo por um conjunto de fatores (não culpo apenas a política internacional, já que a própria população nativa também é culpado). Termino este post citando o livro da antropóloga E. Traube (1986) que viveu entre os Mambae e analisou os rituais desse povo leste-timorense no início da década de 80 do século XX; naquela época ela chamou atenção, no prefácio de seu livro, para o fato de alguns povos já terem perdido seus traços culturais, pois queriam se tornar "civilizados" ou "urbanizados", como é o caso de Manatuto.

Para todo este problema não tenho uma solução, pois acho que não há e não depende somente de mim. O que venho deixar aqui registrado são alguns equívocos e a hipocrisia mencionados e me posicionar contra eles, fornecendo como uma solução parcial para isso que as pessoas sigam somente o bom senso! O que já é pedir demais...

Referência:

Traube, E. 1986. Cosmology and Social Life. Ritual Exchange among the Mambai of East Timor. Chicago: University of Chicago Press.  


Sunday, April 18, 2010

Palavras iniciais sobre o status do Galolen no século XIX


A língua Tétum sempre teve destaque na historiografia portuguesa a respeito de Timor Leste, tanto através de referências diretas, quanto de referências indiretas. Muitas dessas referências à língua, aos reis tetumófonos - como o rei de WeHali e o rei de Luca - , e aos reinos de Servião e Belos podem ser achados na coletânea de Artur Basílio de Sá, chamada Documetação para a História das Missões do Padroado Português do Oriente (1991-1996), em 12 volumes.  

Quando os portugueses foram expulsos de Lifau estabeleceram-se em Dili, mas também houve o estabelecimento de colégios católicos no atual distrito de Manatuto cuja língua Galolen é a língua materna predominate. Sá (1961) lista uma série de publicações do Pe. Manuel Maria Alves da Silva, datadas entre os anos de 1888 e 1905, que visavam ensinar a língua Galolen para os falantes de outras línguas, assim como ensinar a língua portuguesa para os falantes de Galolen.

Esse fato histórico é fundamental para se compreender melhor a natureza dos contatos linguísticos em Timor Leste, já que um dos argumentos sócio-históricos utilizados para uma suposta crioulização, ou pidgnização, da língua Tétum foi sua eleição pela administração portuguesa e pela igreja católica como língua franca. Esse argumento, então, prova-se falho, já que tal processo ocorreu também com a língua Galolen e não gerou nenhuma variedade de lingua franca, nem variedade crioula. Deve-se, desta maneira, recorrer a outros fatores sócio-históricos e anteriores ao comentado, como já fez Thomaz (2002), que em minha opinião até a atualidade apresentou os argumentos mais sólidos para a ascensão da língua Tétum como língua franca, entre eles a documentação historiográfica portuguesa, algumas evidências linguísticas e estudos toponímicos.

Ainda, recentemente apresentei argumentos de natureza linguística, em Albuquerque (2010), sobre a natureza das mudanças linguísticas em Timor Leste. Devido ao contato intenso entre algumas línguas leste-timorense, há entre estas um grupo que sofreu uma reestruturação gramatical, como o Mambae, Tokodede e o Tétum-Praça.

Com o que comentei brevemente, podemos chegar a uma conclusão: há muito a ser estudado sobre as questões a respeito do contato de línguas em Timor Leste.

Referências:

Albuquerque, D. B. Contatos lingüísticos em Timor Leste: mudanças e reestruturação gramatical. Comunicação apresentada ao VI Encontro da Associação Brasileira de Estudos Crioulos e Similares, Salvador, 2010.

Sa, A. B. 1961. Textos em teto da literatura oral timorense. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar.
_____. 1991-1996. Documentação para a História das Missões do Padroado Português do Oriente. Fundação Oriente/Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, vol. 1-12.

Thomaz, L. F. 2002. Babel Loro Sa’e: O Problema Lingüístico de Timor Leste. Lisboa: Instituto Camões.