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Friday, September 24, 2010

Evidências de contato linguístico em Galolen


Em um post anterior, intitulado Palavras inicias sobre o status do Galolen no século XIX
(http://easttimorlinguistics.blogspot.com/2010/04/palavras-iniciais-sobre-o-status-do.html),
comentei a respeito da língua Galolen, língua materna de origem Austronésica com seus falantes localizados principalmente no Distrito de Manatuto,  e uma mudança em seu status sociolinguístico que ocorreu durante o século XIX. A modificação desse status deu-se por vários fatores, entre eles: os portugueses serem expulsos da capital Lifau (atual Oecussi) em 1769, os freis dominicanos terem se estabelecidos em Manatuto e elaborarem vários estudos e traduções em língua Galolen. Para uma lista completa dessa documentação, ver Sá (1961).

Esses acontecimentos históricos foram notáveis, pois além da língua Tetun somente o Galolen sofreu algum tipo de ascensão sociolinguística no cenário colonial. Tal processo interessa aos estudos linguísticos por vários motivos.Um deles consiste nos estudos dos contatos linguísticos sofridos pelo povo falante de Galolen e as repercussões que esses contatos tiveram na língua.

Dalgado já no início do século XX (Dalgado 1936) já havia identificado na língua Galolen mais de 400 palavras de origem portuguesa, consultando a documentação do Pe. Manuel Maria Alves da Silva, elaboradas entre os anos de 1888 e 1905. Hull (2002) observara também que o povo do Distrito de Manatuto possui uma cultura voltada para o mar, fazendo com que esse povo sofresse contatos desde tempos anteriores a chegada dos portugueses. Tais evidências encontram-se presentes na maior parte do léxico da língua, que possui uma série de campos semânticos especializados em relação à pesca, navegação, comércio, alimentação etc. O mesmo foi constatado por mim em meu artigo introdutório sobre as línguas de Timor Leste (Albuquerque 2010), intitulado As línguas de Timor Leste: Perspectivas e Prospectivas, comentado no post anterior (http://easttimorlinguistics.blogspot.com/2010/09/as-linguas-de-timor-leste-perspectivas.html).     

Continuando minhas investigações sobre esses contatos, verifiquei evidências na documentação citada acima de Sá (1961) de que havia uma certa quantidade de indivíduos de origem indo-portuguesa, consequentemente falantes de alguma variedade do Crioulo Indo-Português, trabalhando em certas propriedades em Timor Leste cujos donos eram portugueses. Ainda, em Castro (1943) o autor elenca no decorrer de seu livro uma série exemplares da flora, da alimentação e de outros itens da cultura material trazidos de Goa para Timor Leste e esses conceitos foram incorporados ora pela língua Galolen, ora pela língua Tetun. Entre esses itens há: flores de sapato 'tipo de planta que se usa para extrair uma tinta preta', cabaia 'tipo de vestimenta longa usada pelos homens', enrotar (e suas variantes) 'consertar cadeiras e sofás; tipo de palmeira', bidos (em Goa guidos) 'dança dos cristãos', sarasa 'traje específico das mulheres', ghi 'manteiga da Índia'.

Dessa forma, pode-se concluir que houve um contato maior entre os falantes de Crioulo Indo-Português com o povo Galolen. As evidências lexicais apontadas acima ainda são iniciais e provisórias para se afirmar mais a respeito da natureza desse contato analisado brevemente aqui. Porém esses são passos iniciais que já estão sendo dados em direção a um melhor conhecimento da situação de contato de línguas em Timor Leste.  

P.S. Fiz uma correção no texto, conforme João Paulo Esperança sugeriu-nos. Tais sugestões encontram-se também nos comentários. Agradeço muito ao colega João Paulo pela contribuição!

Referências:

Albuquerque, D. B. 2010. As línguas de Timor Leste: Perspectivas e Prospectivas. Língua e Literatura 27: 313-335.

Castro, A. O. 1943. A ilha verde e vermelha de Timor. Lisboa: Agência Geral das Colônias.

Dalgado, S. 1936. Influence of Portuguese Vocables in Asiatic Languages. Barado: Baptiste Mission Press.

Hull, G. 2002. The Languages of East Timor. Some basic facts. Disponível em:

Sunday, April 18, 2010

Palavras iniciais sobre o status do Galolen no século XIX


A língua Tétum sempre teve destaque na historiografia portuguesa a respeito de Timor Leste, tanto através de referências diretas, quanto de referências indiretas. Muitas dessas referências à língua, aos reis tetumófonos - como o rei de WeHali e o rei de Luca - , e aos reinos de Servião e Belos podem ser achados na coletânea de Artur Basílio de Sá, chamada Documetação para a História das Missões do Padroado Português do Oriente (1991-1996), em 12 volumes.  

Quando os portugueses foram expulsos de Lifau estabeleceram-se em Dili, mas também houve o estabelecimento de colégios católicos no atual distrito de Manatuto cuja língua Galolen é a língua materna predominate. Sá (1961) lista uma série de publicações do Pe. Manuel Maria Alves da Silva, datadas entre os anos de 1888 e 1905, que visavam ensinar a língua Galolen para os falantes de outras línguas, assim como ensinar a língua portuguesa para os falantes de Galolen.

Esse fato histórico é fundamental para se compreender melhor a natureza dos contatos linguísticos em Timor Leste, já que um dos argumentos sócio-históricos utilizados para uma suposta crioulização, ou pidgnização, da língua Tétum foi sua eleição pela administração portuguesa e pela igreja católica como língua franca. Esse argumento, então, prova-se falho, já que tal processo ocorreu também com a língua Galolen e não gerou nenhuma variedade de lingua franca, nem variedade crioula. Deve-se, desta maneira, recorrer a outros fatores sócio-históricos e anteriores ao comentado, como já fez Thomaz (2002), que em minha opinião até a atualidade apresentou os argumentos mais sólidos para a ascensão da língua Tétum como língua franca, entre eles a documentação historiográfica portuguesa, algumas evidências linguísticas e estudos toponímicos.

Ainda, recentemente apresentei argumentos de natureza linguística, em Albuquerque (2010), sobre a natureza das mudanças linguísticas em Timor Leste. Devido ao contato intenso entre algumas línguas leste-timorense, há entre estas um grupo que sofreu uma reestruturação gramatical, como o Mambae, Tokodede e o Tétum-Praça.

Com o que comentei brevemente, podemos chegar a uma conclusão: há muito a ser estudado sobre as questões a respeito do contato de línguas em Timor Leste.

Referências:

Albuquerque, D. B. Contatos lingüísticos em Timor Leste: mudanças e reestruturação gramatical. Comunicação apresentada ao VI Encontro da Associação Brasileira de Estudos Crioulos e Similares, Salvador, 2010.

Sa, A. B. 1961. Textos em teto da literatura oral timorense. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar.
_____. 1991-1996. Documentação para a História das Missões do Padroado Português do Oriente. Fundação Oriente/Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, vol. 1-12.

Thomaz, L. F. 2002. Babel Loro Sa’e: O Problema Lingüístico de Timor Leste. Lisboa: Instituto Camões.

Thursday, December 24, 2009

Estudos lingüísticos sobre Timor Leste

As publicações de natureza lingüística sobre Timor Leste como um todo, ou sobre alguma língua específica, ou estudos comparativos etc. são poucos, ou quase nulos, em língua portuguesa. Podemos dividir em duas grandes partes: uma primeira que é uma basicamente estudos de origem lexicográfica da tradição portuguesa - que data da segunda metade do século XIX e início do XX - e a segunda que consiste em alguns estudos lingüísticos mais recentes realizados por lingüistas portugueses e brasileiros.

O pioneiro foi Sebastião da Silva, que era um padre português, que publicou um dicionário Português-Tétum (Silva, 1889). Outro padre português, o padre Manuel da Silva, publicou uma gramática do Galolen (Silva, 1900) e um dicionário Português-Galolen (Silva, 1905). Ainda, Raphael das Dores continuou o trabalho do padre Sebastião da Silva e publicou um dicionário Tétum-Português no ano de 1907.


Já o início do século XX foi marcado pelo forte presença portuguesa nos estudos sobre a língua Tétum. O padre Manuel Mendes Laranjeira publicou sua Cartilha Tétum, em 1916 (Lranjeira, 1916); Júlio Garcêz de Lencastre publicou um trabalho intitulado Algumas regras gramaticais da língua tétum e vocabulário, em 1929 (Lencastre, 1929); e outro padre, chamado Abílio Fernandes, publicou outra obra didática sobre o tétum o Método prático para aprender o tétum, em 1937 (Fernandes, 1964).

Atualmente, destaca-se os trabalhos do lingüista português João Paulo Esperança e da lingüista brasileira Regina H. P. Brito. Esperança em sua obra Estudos de Lingüística Timosense (Esperança, 2001) possui uma coletânea de artigos sobre análise da língua Tétum, sobre o Português Crioulo de Bidau, sobre questões de política lingüistica em Timor Leste e sobre a língua portuguesa em Timor Leste. Outro destaque que esse trabalho merece é por ter sido disponibilizado pelo autor no seguinte endereço http://www.freewebs.com/jpesperanca/.

Brito possui diversos artigos espalhados em periódicos, mas que vários são de acesso aberto e podem ser encontrados na internet. Entre eles merecem destaque os seguintes artigos: Brito (2002, 2004) analisa algumas questões sobre o português em Timor Leste; Brito e Bastos (2007)  avaliam algumas questões de política lingüística em Timor Leste, disponível em
http://www.acoalfaplp.net/0003acoalfaplp/0003acoalfaplp_textos/5cultgepalops/18he_m_o_b_b_tar_des_ex_ling_timor_leste.pdf ; Brito e Corte-Real (2002) realizam uma análise fonológica da variedade do Português de Timor Leste.

Eu, o autor deste blog sobre lingüística de Timor Leste, venho recentemente me interessando por questões de lingüística timorense após passar os anos de 2008-2009 como professor de Língua Portuguesa na UNTL (Universidade Nacional Timor Lorosa'e) em Díli, capital de Timor Leste. Estou realizando as seguintes pesquisas: lingüística histórica e classificação interna das línguas timorenses de origem austronésica, descrição de algumas das línguas austronésicas, e o contato de línguas na ilha de Timor.

Em breve disponibilizarei meus artigos que já estão publicados em alguns periódicos de acesso aberto, colocarei seus respectivos links e farei também um breve resumo deles.
 
Referências:
 
BRITO, R. H. P. “Reflexões sobre o português em Timor-Leste”. Revista Mackenzie Educação, Arte e História da Cultura, São Paulo, v. 2, p. 87-95, 2002.

________. “A língua adormecida: o caso Timor-Leste”. In: BASTOS, N. M. (Org.) Língua Portuguesa em calidoscópio. São Paulo: Educ/Fapesp. p. 319-329. 2004.

BRITO, R. H. P. & BASTOS, N. M. B. “"Hello, mister", "Obrigadu barak" e "boa tarde": desafios da expressão lingüística em Timor-Leste”. Revista ACOALFAplp: Acolhendo a Alfabetização nos Países de Língua portuguesa, São Paulo, ano 2, n. 3, 2007.

BRITO, R. H. P. & CORTE-REAL, B. Algumas especificidades fonético-fonológicas da variante do português timorense. VIII SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN SOCIAL, 2002. Santiago de Cuba. Actas, v. 1. p. 147-151.

DORES, R. Diccionario teto-português. Lisboa: Imprensa Nacional, 1907.
 
FERNANDES, A. Método prático para aprender o tétum. Macau/Díli: Comando Territorial Independente de Timor, 1964.
 
LARANJEIRA, M. M. Cartilha Tétum. Díli: Imprensa Nacional, 1916.
 
LENCASTRE, J. G. “Algumas regras gramaticais da língua tétum e vocabulário”. In: Boletim da Agência Geral das Colônias 5.54:82-92, 1929.
 
SÁ, A. B. “Notas sobre linguistica timorense: Sistema de representação fonética”. In: Estudos Coloniais 3:39-60, 1952.
 
SILVA, M. M. A. Noções da grammatica galoli, dialecto de Timor. Macau: Typographia do Seminário de São José, 1900.
________. Diccionario portuguez-galoli. Macau: Typographia Mercantil, 1905.

SILVA, S. M. A. Diccionario Portuguêz-Tétum. Macau: Typographia do Seminario, 1889.