Friday, November 25, 2011

Povos ancestrais de Timor eram pescadores habilidosos

Na revista Science será publicado um artigo de Sue O'Connor, arqueóloga de the Australian National University, que a professora apresenta seus principais achados encontrados na escavação da caverna de Jerimalai, pequena caverna localizada no extremo leste de Timor-Leste.

A escavação da caverna ainda está no início (foram escavados somente cerca de 1 m2  e 2 metros de profundidade), porém muito material já foi encontrado. Entre estes materiais destacam-se: mais de 2.800 ossadas de peixes, incluindo peixes de alto mar, artefatos de pedra, ossos pontiagudos e ganchos de pesca feitos de concha.

Esses ganchos de pesca, feito com conchas, datam entre 23.000 e 16.000 anos antes do presente. Estes foram os instrumentos de pesca com datação mais antiga já encontrados e pode dizer muito a respeito de como era a vida na costa leste-timorense em tempos pré-históricos.

A matéria completa, intitulada Early humans were skilled deep sea fishers, pode ser lida (em inglês) no seguinte link:
http://www.abc.net.au/news/2011-11-25/early-humans-skilled-deep-sea-fishers/3694324?section=world

Monday, November 21, 2011

Política linguística e material didático


Ao iniciar uma análise dos materiais didáticos, e as abordagens, métodos e técnicas usadas no ensino de português como segunda língua (PL2) em Timor-Leste cujo fruto inicial foi a comunicação citada no post anterior 
percebi que é urgente trabalhos linguísticos desta natureza, já que são poucos que estão se dedicando a tal estudo, tão urgente e necessário.

Ao preparar a versão escrita a ser publicada de minha comunicação, encontrei o artigo de Alan Carneiro, intitulado Política linguística em Timor-Leste: uma reflexão acerca dos materiais didáticos, que também procura analisar livros didáticos de língua portuguesa usados no ensino em Timor-Leste. O autor, além de relacionar questões de política linguística e ensino, enfoca temas culturais que são fundamentais no processo de ensino e aprendizagem de línguas. O link para o artigo é:

O referencial teórico do autor não é compartilhado por mim, já que adoto a teoria francesa de política e planejamento linguísticos, principalmente as teorias que visam uma prática ecológica, como Calvet. Assim como, oponho-me à teoria do multiculturalismo não em um plano linguístico, mas no plano filosófico, que, segundo minhas leituras, tal teoria apresenta diversas falhas. Porém, esse tipo de discussão não é pertinente para este post (quem sabe escrevo algo a respeito no futuro).

Recentemente, terminei um artigo, intitulado Política linguística para línguas oficiais em Timor-Leste: o português e o Tétum-Praça, e agora procurarei um periódico para publicá-lo. Neste artigo analiso a política e o planejamento linguísticos de Timor-Leste em relação a suas línguas oficiais, analiso também como o planejamento linguístico mudou no decorrer da história do país, e são discutidas questões sobre o corpus e o status das línguas oficiais leste-timorenses e as situações in vivo e in vitro que alteraram o status e o corpus do português e, principalmente, do Tétum-Praça.     

Ainda, por sugestão do amigo Nuno Almeida, como também pode ser lido no P.S. do post anterior, há o artigo de Lúcia Vidal Soares, intitulado Ensino/aprendizagem do português no contexto plurilíngue de Timor-Leste: rola ou lakateu? rola e lakateu!, que também discuti questões a respeito do ensino em Timor-Leste, e pode ser baixado no link http://www.simelp2009.uevora.pt/pdf/slg6/04.pdf.

Ficam aqui registradas mais duas novas bibliografias que versam sobre o assunto de ensino e material didático de língua portuguesa em Timor-Leste.

Tuesday, November 15, 2011

O Ensino de português em TL: Análise dos Livros Didáticos

Recentemente, apresentei uma comunicação, intitulada O Ensino de Língua Portuguesa em Timor-Leste: Uma Análise dos Livros Didáticos, na Sessão 5 do II ENILL (2o Encontro Interdisciplinar de Língua e Literatura), na Universidade Federal de Sergipe (UFS), em Itabaiana.

A comunicação é fruto de uma investigação inicial a respeito do processo de ensino e aprendizagem da língua portuguesa em Timor-Leste. Este trabalho é o primeiro passo da investigação, focando nos livros didáticos (LDs), na elaboração de materiais didáticos pelos professores, assim como na importância e o uso destes na sala de aula de Português como Língua Estrangeira (PLE). e segunda língua (PL2).

Em breve, pretendo publicar a versão escrita desta comunicação nos Anais do Encontro.

Segue o resumo aos interessados:

Resumo: Na presente comunicação, será realizada uma análise dos livros didáticos usados no ensino de língua portuguesa em Timor-Leste. Além destes, serão analisados também outros materiais didáticos que são elaborados pelos professores para substituir o livro didático. Os dados utilizados foram coletados pelo próprio autor, que atuou como professor de língua portuguesa no país citado. Na análise dos livros e materiais didáticos serão destacados a(s) abordagem(ns) e o(s) método(s) presentes nestes, assim como suas respectivas repercussões, em sua maioria negativas, para o processo de ensino e aprendizagem do português como L2 ao cidadão leste-timorense.

Palavras-chave: Timor-Leste; Português L2; material didático; abordagem; método. 


P.S. Reproduzo aqui um comentário, que tem muito a acrescentar à questão, do colega Nuno Almeida a respeito deste post:


Colega
É com agrado que recebo a notícia de mais uma reflexão sobre os livros didáticos (manuais) de LP em TL. De facto, esta é uma questão-chave para o sucesso da (re)introdução do português nesse país.
Também eu tive a oportunidade de, no III SIMELP-Macau, apresentar uma comunicação sobre esta temática, intitulada "O papel do manual de LP em TL", texto que aguarda publicação. Nessa reflexão, e com base na minha experiência de formação a professores do ensino público timorense, defendo que os manuais de LP têm, em TL, um papel específico, uma responsabilidade acrescida, devido a diversos fatores, de entre os quais, destaco: o contexto de aprendizagem da língua
portuguesa e as necessidades comunicativas dos alunos; a falta de preparação científica, pedagógica e linguística dos professores; o caráter virtual da presença da língua portuguesa na escola e na
administração; a aparente indefinição do papel desta língua naquele país; a articulação de determinadas marcas culturais com a língua portuguesa; o estado da investigação dedicada à língua portuguesa em Timor-Leste e a indefinição de uma norma da variedade leste-timorense.
Daqui resulta que a elaboração de manuais de LP para aplicar em TL deve partir de uma sólida base de reflexão, conhecimento e investigação. Saúdo, por isso, o seu trabalho.
Quero ainda deixar uma ligação para alguns textos sobre esta temática que postei há algum tempo, textos da autoria de uma das responsáveis pela elaboração dos manuais de LP que foram recentemente adotados pelo Ministério da Educação, para o ensino primário, e distribuídos, em 2010, pelas escolas de Timor.
Abraço
Nuno Almeida

Sunday, November 13, 2011

O futuro do português em Timor-Leste - 11 Uma conclusão... por enquanto


Por causa de uma série de tarefas profissionais e acadêmicas, fiquei um tanto desatualizado sobre a polêmica da língua portuguesa. E é com felicidade que escrevo este post para encerrar esta série sobre O futuro do português em Timor-Leste, pois parece, ao menos por enquanto, que a língua portuguesa está garantida em Timor-Leste, já que fontes próximas ao Presidente da República afirmaram que a proposta de abolição do português no ensino básico não passou de uma intenção.

A matéria foi publicada há um tempo, no dia 29 de setembro, no jornal Hoje Macau porém somente tive conhecimento recentemente, devido a informações do colega linguista e também professor que já atuou em Timor-Leste, Nuno Almeida, e registro aqui também meus agradecimentos. 

A notícia, intitulada Português de Pedra e Cal, fala da proposta, das fontes do Presidente da República, da inconstitucionalidade do projeto, entre outras coisas. Ela pode ser lida na íntegra no link a seguir: http://hojemacau.com.mo/?p=21123.

A língua portuguesa manteve-se no país e conseguiu vencer mais essa batalha, pois parece que ela ameaça interesses comerciais de Estados e entidades internacionais, que possuem "vários olhos" apontados em direção a Timor-Leste. Considero essa vitória nada mais do que uma justiça feita à língua portuguesa, assim como a todos os profissionais que vêm trabalhando e se empenhando para mante-la em Timor-Leste. Ainda, pode ser visto também que os interesses de uma pequena parcela acabam por se "fantasiar" de elementos governamentais e científicos para justificar sua veracidade, que não se confirma.

Mesmo com dificuldades no processo de ensino e aprendizagem, grande parte da população leste-timorense quer a língua portuguesa e fico feliz com a vitória democrática dos interesses populacionais.




Monday, November 07, 2011

Páginas de Português - A língua portuguesa em Timor-Leste


Páginas de Português é um programa semanal da rádio Antena 2 da RTP (todos os domingos às 17:00) e possui o objetivo de discutir atualidades a respeito da língua portuguesa. No domingo do dia 16 de outubro, o tema foi A língua portuguesa em Timor-Leste e pode ser ouvido na íntegra ou baixado no link:

Há também no blogue Professores de português em Timor-Leste um texto explicativo para divulgação da entrevista, assim como um vídeo com a reprodução da entrevista e fotos de Timor-Leste, ambos de autoria de Nuno Almeida. O texto e o vídeo reproduzo abaixo, conforme está no link do blogue citado:



Páginas de Português sobre a língua portuguesa em Timor-Leste

Nuno Almeida

A emissão de Páginas de Português transmitida no passado domingo, 16 de outubro, na Antena 2, contou com a presença de Hanna Batoréo, que analisa a realidade da língua portuguesa em Timor-Leste, colocando várias questões: O que faz a língua portuguesa em Timor-Leste? E o que se faz com ela? A opção pela língua portuguesa, como língua oficial, que desafios implica, com que realidades se confronta?

Uma entrevista conduzida por Miguel Roque Dias.

A linguista e professora agregada do Departamento de Humanidades da Universidade Aberta descreve o panorama atual da LP em Timor-Leste, abordando várias questões: o número de falantes, a sua presença nos meios de comunicação social, a relação com as outras línguas usadas no território, a estratégia de cooperação e a mais recente polémica em torno das alterações propostas relativamente ao seu estatuto no sistema de ensino. Para finalizar, refere-se, em tom crítico, ao estado da investigação sobre esta temática:

“Tal como diz Luís Filipe Thomaz num dos seus livros de 2002, os portugueses normalmente sabem pouco de Timor e o pouco que sabem vão repetindo, de tal maneira que estas repetições passam a ganhar o estatuto de verdades absolutas. E, infelizmente, esta frase continua atual […]. Eu acho que todos nós temos de lutar no sentido de contribuir para que esta frase do professor Luís Filipe Thomaz deixe de ter a sua importância real, ou seja, que passem a aparecer pessoas como Soraia Lourenço ou como Nuno Almeida, pessoas que fazem estudos que contribuem para o conhecimento concreto do terreno […] e que mostrem as suas ideias, que mostrem como as coisas podem ser desenvolvidas no solo timorense.”

A entrevista tem cerca de 25 minutos e pode ser ouvida diretamente a partir do sítio da Antena 2 aqui, se bem que nem sempre se encontre disponível. Em alternativa, podem ver o pequeno filme que produzi para poder postar diretamente aqui no nosso blogue, no qual usei fotos que fui tirando em Timor.

 

Wednesday, November 02, 2011

Timor Leste, Arte e Cultura

Apenas para divulgação, há um excelente grupo no Facebook, intitulado Timor Leste, Arte e Cultura, gerenciado por Nina Guterres, onde podem ser discutidas várias questões a respeito de Timor-Leste, juntamente com o compartilhamento de diversos materiais, como fotos, vídeos, exposições e muitas outras informações.

O link para o grupo é http://www.facebook.com/groups/165448270195861/. Ainda, lá podem ser encontradas pessoas de diferentes nacionalidades que se interessam por Timor-Leste de alguma maneira, assim a iniciativa do grupo também acaba por juntar diversas pessoas que possuem alguns interesses em comum, sendo o principal o estudo de Timor-Leste.

Mais uma dica do nosso blogue para aqueles que estão interessados... 

Tuesday, November 01, 2011

Arquivo e Museu da Resistência Timorense

Sigo aqui escrevendo um pouco mais sobre a Resistência Timorense à invasão indonésia. Enquanto no post anterior, intitulado Documentário de Max Stahl sobre o Massacre de Santa Cruz - 'Timor à Procura', disponível em http://easttimorlinguistics.blogspot.com/2011/10/documentario-de-max-stahl-sobre-o.html, comentei sobre um acontecimento trágico, que foi o Massacre de Santa Cruz, neste post trago um notícia boa a respeito do museu da resistência, que já está em funcionamento há um tempo.

Recomendo a visita ao sítio do Arquivo e Museu da Resistência Timorense (AMRT) cujo link é http://amrtimor.org/index.

Lá pode ser acessado e visto uma série de documentos escritos da resistência, assim como muitas fotografias, algumas mostram atrocidades cometidas pelo exército indonésio, enquanto outras mostram belíssimas paisagens leste-timorenses, juntamente com hábitos culturais autóctones, que foram preservados. Algumas destas chegam a datar de anos anteriores à invasão, que ocorreu em 1975.

Há ainda partes do sítio em construção, porém o vasto material lá compilado, já vale a pena ser consultado, tanto para pesquisas acadêmicas, quanto para adquirir conhecimentos, ou apenas em nível de curiosidade.

Segue aqui um vídeo do Notícias Sapo (o link é http://videos.sapo.pt/Lhnt22T4Lf0dMaRlS6W9), que fala sobre a inauguração do AMRT, que fica em Dili, capital de Timor-Leste, em um prédio que era um antigo tribunal português, localizado próximo da UNTL (Universidade Nacional Timor Lorosa'e).


Friday, October 28, 2011

Documentário de Max Stahl sobre o Massacre de Santa Cruz - 'Timor à Procura'

Santa Cruz demonstrators

(foto extraída do sítio da ETAN, mostrando os participantes da marcha pouco antes do massacre, disponível em http://www.etan.org/timor/SntaCRUZ.htm)

O incidente infeliz, conhecido como Massacre de Santa Cruz, ocorreu em 12 de novembro de 1991, em Dili, capital de Timor-Leste. O nome 'Santa Cruz' é de um cemitério em Dili, onde mais de duas mil pessoas organizaram-se em uma marcha para homenagear o jovem Sebastião Gomes, morto em outubro do mesmo ano, em 1991. Sob violenta dominação indonésia no período, os cidadãos leste-timorenses foram massacrados pelas forças invasoras indonésias, que abriram fogo, massacrando a multidão. Ainda, as forças indonésias após o massacre levaram diversos leste-timorenses feridos ou considerados por eles 'perigosos' e, assim, desapareceram com outra parte da multidão.

Esse acontecimento trágico teria caído em esquecimento e seria abafado pela Indonésia e outras agências internacionais, se não fosse a atuação do jornalista Max Stahl que no momento do massacre estava em Dili, foi capaz de filmar e mostrar ao mundo as atrocidades cometidas pelo regime indonésio. No link http://www.nancho.net/fdlap/maxstahl.html, há uma entrevista (em inglês) com Max Stahl, intitulada 20 years of Terror - Indonesia in Timor '20 anos de terror - Indonésia em Timor' (somente o título já nos diz muita coisa), falando a respeito de sua viagem à Timor, sobre a filmagem, sobre Indonésia etc. Outro link interessante é o http://www.youtube.com/watch?v=ElWMSN5hIK0 que mostra as cenas originais feitas por Max Stahl, assim como acompanha as investigações feitas em 1994.    

Segundo números do Comitê 12 de Novembro, organização que ajuda as famílias das vítimas desaparecidas, 2261 pessoas participaram na manifestação. Destas, 74 foram identificadas como tendo morrido no massacre e 127 morreram depois do massacre.

O filme, intitulado Timor à Procura, além das filmagens originais do massacre, acompanhou durante cerca de três anos equipes de antropólogos forenses e outros especialistas que procuraram vestígios e ossadas de supostas vítimas do massacre, chegando a identificar vários e devolver as ossadas às famílias. 

No próximo dia 12 de novembro decorre 20 anos do massacre e o filme será exibido em frente ao Palácio do Governo para a população. 

Mesmo depois de 20 anos muitas coisas permanecem obscuras, muitas vítimas e perguntas ainda estão a ser respondidas...

Thursday, October 27, 2011

Documentação sobre Timor-Leste

No Notícias Sapo TL saiu uma matéria, no dia 25 de Junho de 2011, que discorre a respeito da existência de uma vasta documentação sobre Timor-Leste em Portugal. A notícia, intitulada Portugal guarda mais de 5.000 documentos sobre Timor-Leste, pode ser lida no link:

O principal pólo da documentação é o Arquivo Histórico Ultramarino localizado em Lisboa, Junqueira (na zona ribeirinha), e podem ser consultadas maiores informações em http://www.iict.pt/ahu/index.html. Outro local que guarda vários documentos é o Museu Municipal, em Figueira da Foz, link: 

Apesar de ter passado os links para os sítios dos respectivos lugares, devo alertar ao leitor que não há material disponível para download. Apenas informações adicionais, já que a consulta do material deve ser supervisionada por especialistas e ocorrer somente no local, principalmente por motivos de segurança e conservação das peças.

Entre as peças, podem ser citados a existências de diversas amostras da flora leste-timorense, juntamente com documentações históricas, peças arqueológicas e itens da cultura material dos povos nativos. Vale a pena conferir, e para aqueles que estiverem próximos aos locais citados, recomento a visita e a consulta.


Saturday, October 22, 2011

Ita-nia Kultura - novo blog sobre Timor-Leste

Soube recentemente, através de uma divulgação de João Paulo Esperança, um blog novo que abordará questões de história, cultura e tradições leste-timorenses. O blog, chamado Ita-nia kultura, que está hospedado no Blogs Sapo TL,  teve seu início há pouco tempo, no mês de agosto deste ano.

Os primeiros posts que já estão disponíveis mostram fotos antigas e raras tanto de cidadãos leste-timorenses com suas vestimentas e que seguem as tradições nativas, como há fotos de coleções de selos antigos dos correios, há do período de Timor Português e até de tempos coloniais anteriores a esse período. 

Recomendo, então, aos meus leitores conferir este blogue, no link http://ita-nia_kultura.blogs.sapo.tl/, e eu mesmo aguardo ansiosamente que novas imagens e textos sejam postados. É um bom conselho, até mesmo para entrar em novos ares e descansar um pouco sobre a polêmica recente em torno de políticas linguísticas e a ameaça da língua portuguesa...


Sunday, October 16, 2011

O futuro do português em Timor-Leste - 10 Contradições no planejamento linguístico

Enquanto são discutidas questões relativas ao lobbie anglófono, claramente influenciadas por interesses financeiros, principalmente em relação à política da educação multilíngue baseada em língua materna, certas atitudes governamentais leste-timorenses são um tanto contraditórias. A seguir enumerarei somente algumas delas, que foram mais recentes.

O ministro  da educação de Timor-Leste, João Câncio de Freitas, no dia 14 de outubro, proferiu algumas falas interessantes. A primeira delas foi sobre a formação de 197 novos professores no Instituto Nacional de Formação de Docentes e Profissionais de Educação. Destes 197 professores, 127 foram de língua portuguesa, ou seja, quase 70% dos professores formados foram na área de língua portuguesa, o que mostra o interesse da população, dos professores e dos alunos com o português.

A segunda fala do ministro foi sobre a porcentagem de falantes em língua portuguesa. Segundo ele, o número de falantes de língua portuguesa em Timor-Leste cresceu para 35%.

Finalmente, a terceira fala do ministro que interessa para nós foi a respeito da capacitação de professores. Segundo João Câncio, há oito mil (8.000) professores leste-timorenses que necessitam de qualificação, e o ministro pretende que até o ano que vem, em 2012, atenda a cerca de 2000 professores, o que corresponde a 35%.

A última notícia foi a publicação do Timor-Leste Communication and Media Survey, pela INSIGHT Team, da UNMIT, que trouxe informações interessantes de uma pesquisa feita sobre as línguas, o uso e o alcance das mídias em Timor-Leste. Entre elas é possível citar que o uso do indonésio caiu (tanto nas mídias , rádio e televisão, quanto no letramento) e o uso do português aumentou na mesma proporção, tanto nas mídias quanto em relação ao letramento. Assim como, a parcela da população leste-timorense que passou a simpatizar com a língua portuguesa e preferi-la no lugar do indonésio também cresceu e, desta forma, o interesse do indonésio diminuiu. O documento pode ser baixado no link:

O que eu pude concluir, e espero também que outras pessoas possam fazer o mesmo, é que o interesse da população leste-timorense pela língua portuguesa tem crescido em áreas diversas na esfera social. Há interesse por parte de professores, alunos, estudantes universitários, a população em geral, políticos etc. Isto foi comprovado de maneira sucinta no que eu expus anteriormente neste post. 

As contradições, que fiz referência no título, basicamente são o interesse de poucos em abolir a língua portuguesa de Timor-Leste (por mais que muitos afirmam que isto não está a acontecer) através de políticas linguísticas e a implantação destas, ou seja, o planejamento linguístico. Primeiro, abole-se do ensino básico, ou seja, ninguém mais a aprende quando pequeno, e posteriormente pode-se abolir nas demais esferas sociais. Porém, as contradições são claras, já que esta não é a vontade do povo leste-timorense nem dos próprios governantes do país. Tal atitude contra a língua portuguesa está disfarçada e limitada a um número reduzido de elites estrangeiras e nativas leste-timorenses e de uns poucos governantes.


NOTA: algumas informações deste post tiveram a Agência Lusa e a Página Global como fontes de alguns dados. 


Sunday, October 09, 2011

O futuro do português em Timor-Leste - 9 A rivalidade entre os sucos


Nesta última sexta-feira, 06 de outubro, o Jornal Independente publicou uma notícia a respeito da declaração do porta-voz do Sindicato dos Professores de Timor-Leste (SPTL), Agostinho Soares, sobre a implementação do ensino em língua materna. Tive acesso à notícia no blogue Timor Hau Nian Doben pela indicação do amigo António Veríssimo, que eu registro aqui meus agradecimentos. 

Segundo, Agostinho Soares, a futura geração leste-timorense será dividida, principalmente, poderá ser retomadas antigas rivalidades entre 'sucos' (divisão político-administrativa nativa, do Tetun suku, semelhante a pequena vila ou vilarejo), o chamado 'suquismo' (Isto foi um dos meus argumentos no post O futuro do português em Timor - 5 Análise do Educação multilíngue baseada na língua materna, que pode ser lido no link:
Ainda, ele fala também da impossibilidade e da inconstitucionalidade de tal proposta (também já discutida por mim no post O futuro do português em Timor - 2 A legalidade da nova política linguística que pode ser lido no link:

Vale lembrar aos leitores do blogue também que qualquer estrangeiros que visitou Timor-Leste, e os próprios cidadãos leste-timorenses sabem disso, há línguas e grupos etnolinguísticos que já gozam de um status social superior a outros grupos, considerados menores. Como exemplo, posso mencionar o grupo manbófono, falantes da língua Manbae (ou Mambae, Mambai), que, além de serem em grande número, estão localizados na região central de Timor-Leste e possuem diversos representantes nas camadas sociais mais altas, como políticos, professores universitários, nobres etc. Outros grupos etnolinguísticos que gozam de um status social  superior aos demais são: o Makasae, que possuem certas características sociais próximas ao grupo Manbae, e os falantes de Tetun Terik, que sempre possuíram uma posição de prestígio e destaque na sociedade leste-timorense, principalmente por causa do mito de manterem a língua Tetun 'pura' (a variedade Tetun Terik).    

Após essas breves informações para se refletir, e quem sabe até mereçam uma pesquisa ou análise mais aprofundada, a notícia pode ser lida inteira no link
http://timorhauniandoben.blogspot.com/2011/10/politica-do-uso-das-linguas-maternas.html.


Saturday, October 01, 2011

O futuro do português em Timor-Leste - 8 Mais um linguista fala do assunto - Hanna Batoréo

Seguindo aqui a série de posts sobre a situação da língua portuguesa em Timor-Leste, este post falarei somente da entrevista fornecida ao jornal Hoje Macau pela Profa. Hanna Batoréo, que pode ser vista no link:

A professora apresenta seu ponto de vista teórico, predominantemente da psicolinguística. Fala, ainda, da importância do ensino do português para torná-lo mais acessível aos cidadãos leste-timorenses, e também da proposta que o aboli do ensino básico não ser de todo ruim, já que possui fundamentos psicolinguísticos e um caso semelhante foi adotado em Cabo Verde. 

Eu não estou a par da situação de Cabo Verde, por isso não posso falar muito sobre assunto, apenas devo lembrar aos leitores que há uma diferença em considerar a língua materna dos falantes para ser inserida no ensino básico quando esta é um crioulo de base lexical portuguesa. O ensino de crioulo português, L1 de uma comunidade, quando inserido como língua do ensino nas séries iniciais é uma ponte entre a variedade crioulizada e o português, que somente facilitará a passagem de uma para outra. De maneira diferente, uma língua leste-timorense nativa, de filiação genética distinta do português, não fará ligação nenhuma com a língua portuguesa, já que o máximo que pode acontecer em Timor-Leste relativo a situação de ensino de línguas na África é a influência que o português tem sobre o Tetun, mas em nenhuma outra língua nativa da região, a não ser em alguns empréstimos via Tetun. Ainda, a respeito da teoria psicolinguística, ela não é de todo unânime, já que diferentes linguistas dessa área apresentam resultados distintos de suas pesquisas em relação à aquisição e aprendizagem de línguas, envolvendo bilinguismo e multilinguismo, uns que corroboram tal política linguística e outros que não o fazem.

Todavia, o debate científico realizado por estudiosos da área somente tem a enriquecer toda a situação e a divergência de ideias é uma coisa saudável que todos ganham com isso também. Por esse motivo é que deixo aqui registrada a entrevista da linguista, que soma mais conhecimento a respeito da situação da língua portuguesa em Timor-Leste, juntamente com o texto de Nuno Almeida (disponível em:
e meu próprio 
todos disponíveis aqui no blogue.   

Segue aqui a entrevista para download, e o endereço de outro link onde ela pode ser achada, no blogue Professores de português em Timor-Leste:



Monday, September 19, 2011

O futuro do português em Timor-Leste - 7 Análise do EMBLM download

No post número 5 da série O futuro do português em Timor-Leste, intitulado Análise do 'Educação multilíngue baseada em língua materna', disponível em http://easttimorlinguistics.blogspot.com/2011/09/o-futuro-do-portugues-em-timor-leste-5.html, realizei uma análise da Política Nacional do Educação multilíngue baseada em língua materna (EMBLM).

Disponibilizo aqui por motivos práticos e formais a versão em .pdf desta análise para download no link:
http://www.4shared.com/document/mvTADbLl/Anlise_do_EMBLM.html?
ou clicando na imagem abaixo.

Fico a espero dos comentários dos leitores...

O futuro do português em Timor-Leste - 6 A Língua Portuguesa na Escola será uma polêmica virtual?

O texto abaixo é a divulgação de uma comunicação, apresentada ao III SIMELP, de autoria de Nuno Almeida, intitulada Língua Portuguesa na Escola: uma polémica virtual ou Língua Portuguesa: uma ponte para o mundo. O texto está disponível no blogue Professores de Português em Timor-Leste no link: http://profesdeptemtl.blogspot.com/2011/09/lingua-portuguesa-na-escola-uma.html, e a comunicação se encontra disponível para download no link: 

O ponto principal da comunicação ao meu ver é a mudança de ponto de vista para se analisar certas questões linguísticas em Timor-Leste, principalmente na batalha português x inglês, muitas vezes acaba-se por esquecer e deixar de lado as línguas nativas leste-timorenses. Porém, eu discordo em relação a ausência da 'ameaça anglófona', já que constantemente nesta série de posts venho apontando isto, inclusive com outras fontes informacionais, jornalísticas, testemunhas, investigações etc. E acho que a atual proposta do Educação multilíngue baseada em língua materna estar repleta de erros, assim como a possível abolição da língua portuguesa no ensino básico, acabam por corroborar minha posição teórica.

Segue o texto:


Língua Portuguesa na Escola: uma polémica virtual 
ou Língua Portuguesa: uma ponte para o mundo

por Nuno Almeida

Aqueles que têm vindo a acompanhar a reintrodução da língua portuguesa em Timor-Leste na última década já se vão habituando à crónica polémica em torno da presença desta língua naquele país, sempre acontecendo que, depois de acalmarem os ânimos, tudo segue igual. Nos últimos anos, a introdução das línguas nacionais na escola como línguas de instrução, com a consequente retirada de protagonismo ao português neste domínio, tem sido o principal fator de discórdia. Neste debate, curiosamente, a questão polémica nem sempre se coloca efetivamente na concorrência entre a LP e as línguas maternas dos alunos para a instrução nos anos iniciais de escolaridade, acabando por resvalar para a troca de argumentos em torno da existência de uma agenda oculta para a eliminação do português em Timor-Leste, a favor do inglês ou, até, do indonésio.

Considero que, observando o contexto com alguma atenção e agindo em função dele, deixa de se poder falar em concorrência linguística, podendo até pensar-se em complementaridade linguística. Assim sendo, apesar de ter reflexos práticos, esta é, na verdade, uma polémica virtual. Foi assim que a ela me referi no III SIMELP – Macau, na comunicação apresentada no simpósio dedicado a Timor-Leste, com o título Para a (re)introdução da língua portuguesa em Timor-Leste, na qual dediquei uma secção a este assunto. Visto que o texto completo demorará ainda algum tempo até ser publicado e ficar disponível para consulta, tomo a liberdade de transcrever a última parte (com pequenas adaptações textuais) para partilhar aqui no nosso blogue. Espero sinceramente contribuir para a formação de opiniões menos extremadas e mais esclarecidas, nomeadamente quanto ao papel da LP em Timor-Leste, cuja correta interpretação é, a meu ver, a chave do sucesso para o futuro do português em Timor.