Thursday, September 23, 2010

As línguas de Timor Leste: Perspectivas e Prospectivas


Recentemente, publiquei um artigo na revista Língua e Literatura da USP. O artigo intitulado As línguas de Timor Leste: Perspectivas e Prospectivas oferece ao leitor um panorama atualizado das línguas de Timor Leste, elaborado com base em diversas visitas pelos distritos leste-timorenses durante o período de  agosto de 2008 até maio de 2009. O único artigo que tenho conhecimento que oferece um breve panorama sobre as línguas de Timor Leste é de autoria de Hull (2002).

O artigo oferece também oferece, além das informações linguísticas sobre algumas línguas, números de falantes e considerações sobre a ecologia das línguas, alertando a respeito das línguas em riscos de extinção e da necessidade da formação da linguística leste-timorense.  

Segue o Abstract:

The present paper intends to present to the Brazilian reader an introduction to East Timor linguistics studies. In that case, it will be briefly discussed East Timor spoken languages with its genetic classification (sec. 2), followed by some historical information (sec.3). Finally, I argue that only a few researches on East Timor languages have been elaborate, and there are a lot of studies that should be conducted on different linguistics areas.


O artigo pode ser lido e baixado (em uma versão pré-final) pelo meu perfil no Academia.eduhttps://www.academia.edu/2121388/As_linguas_de_Timor_Leste_perspectivas_e_prospectivas.

Referência:

Albuquerque, D. B. 2010. As línguas de Timor Leste: Perspectivas e Prospectivas. Língua e Literatura 27: 313-335.

Hull, G. 2002. The Languages of East Timor. Some basic facts. Disponível em:


Tuesday, August 10, 2010

Peculiaridades prosódicas do Português falado em Timor Leste

As línguas nativas faladas em Timor Leste não são as únicas espécies que ainda estão a ser estudadas, o português falado pelo cidadão leste-timorense vem revelando, segundo minha análise, diversas informações importantes para o estudo de contato, aquisição e variação da língua portuguesa pelo mundo.

No primeiro artigo que produzi sobre a variedade da língua portuguesa falada em Timor Leste, que chamo apenas de Português de Timor Leste, ou PTL, intitulado Peculiaridades prosódicas do Português falado em Timor Leste, discorro sobre algumas propriedades fonético-fonológicas únicas do PTL, o que já é evidência sufuciente para classificar as realizações linguísticas do falante leste-timorense como uma variedade própria e não erros ou problemas de aprendizagem, como vem a ser feito pela grande maioria de professores e/ou linguistas residentes no país.

Seguem abaixo o link para o download do artigo que foi publicado na ReVEL e o resumo do artigo:

Resumoo presente artigo tem o objetivo de apresentar evidências prosódicas para comprovar a existência de uma variedade da língua portuguesa falada em Timor Leste. Para tanto, o artigo apresentará também informações sócio-históricas do contato lingüístico sofrido pelo português na Ásia no decorrer do período da colonização. As chamadas “peculiaridades” são vistas aqui como traços particulares da gramática desta variedade do português.



Sunday, July 11, 2010

Sobre as consoantes palatais em Tetun Prasa


As consoantes palatais não fazem parte do inventário fonológico das línguas de origem austronésicas. Nas línguas de Timor Leste, elas são de origem lusófona e entraram somente através dos empréstimos lexicais para o Tetun Prasa, e, por sua vez, do Tetun Prasa para as demais línguas.

Em uma análise fonológica recente que fiz do Tetun, seguindo uma abordagem ecolinguística (Albuquerque, em preparação), verifiquei que essas consoantes palatais, a saber: ʃ, ʒ, nhlh (não consegui formatar as duas últimas fontes do IPA para o blog, por isto represento pela grafia), não são produtivas na língua, não aparecendo em nenhuma palavra nativa, assim como não são realizadas pelo falante leste-timorense.

Os fones palatais, como classifico-os, ʃ, ʒ, nh e lh são realizados /s/, /z/, /n/ e /l/ respectivamente. Dessa forma, limitam-se ao léxico lusófono emprestado e relativo a conceitos culturais e modernos exteriores à cultura tetumófona, como em vocábulos:

xá, xapeu, xave;
janela, justisa, jornál;
bañu, señór, viziñu;
evanjellu, jullu, relijiaun.

Logo, não há evidências linguísticas suficientes para classificá-los como fonemas que fazem parte do inventário fonológico da língua Tetun, em sua variedade Tetun Prasa, ou Tetun Dili, como vem sendo feito na recente tradição gramatical do Tetun Prasa: Hull (2002), Hull e Eccles (2001) e Williams-van Klinken, Hajek e Nordlinger (2002).

Referências: 
 
ALBUQUERQUE, D. B. (em preparação). Ecofonologia da língua Tetun: um caso de contato e adaptação.   
 
HULL, G. 2002. Dili Tetum. Sydney/Dili: Sebastião Aparício da Silva Project/Instituto Nacional de Linguística/Universidade Nacional de Timor Lorosa’e.
 
HULL, G.; ECCLES, L. 2001. Tetum Reference Grammar. Sydney/Dili: Sebastião Aparício da Silva Project/Instituto Nacional de Linguística/Universidade Nacional de Timor Lorosa’e, 2001. (Tradução para o português: Gramática da Língua Tétum. Lisboa: LIDEL, 2004).
 
WILLIAMS-VAN KLINKEN, C., HAJEK, J. e NORDLINGER, R. Tetun Dili: A grammar of an East Timorese language. Canberra: Pacific Linguistics, 2002.
 

Saturday, June 26, 2010

Terminologia linguística e gafes!!!

Como afirmei no post anterior http://easttimorlinguistics.blogspot.com/2010/06/hau-koalia-tetun-eu-falo-portugues.html, discorrerei brevemente sobre alguma terminologia linguística a respeito de nomenclaturas como: dialeto, variedade, "língua primitiva", entre outras que são importantes para o estudo ou para o simples conhecimento das questões relativas à língua em Timor Leste.

A definição de língua na linguística é um tanto controversa, já que depende muito da abordagem, metodologia e corrente teórica que o linguista segue, assim como que aspectos das línguas ele pretende investigar. Daí surgem diferentes conceitos de língua, dependendo de quais perguntas (qual investigação) são feitas! Mas, posso afirmar, grosso modo, que a língua é um sistema convencional de certos símbolos portadores de significados com o objetivo de proporcionar a comunicação entre indivíduos inseridos dentro de um espaço geográfico específico e que compartilhem certos aspectos culturais.

Dialeto e variedade são conceitos muito próximos, muitas vezes intercambiáveis. Dialeto trata-se simplesmente de uma variedade regional de uma língua específica, que acaba por se diferenciar ligeiramente na fonologia e no léxico principalmente, como exemplo há a própria língua portuguesa que pode ser considerada a existência de um dialeto brasileiro, um dialeto ibérico etc., o inglês com o dialeto britânico, o dialeto norte-americano, o dialeto australiano, e assim sucessivamente. Ainda, o termo dialeto pode ser aplicado também para um tipo de falar específico a alguma classe social, ou comunidade.   

Dessa forma, não existe nenhuma relação da palavra dialeto como ela é empregada no senso comum com o sentido de "língua primitiva", "língua menor", "forma de falar diferente" etc. Estes na realidade são pré-conceitos de pessoas desinformadas que não conhecem a ciência das línguas, tão pouco se informam antes de falar ou emitir opiniões errôneas, que muitos acabam por seguir e repetir. A linguística ao investigar as línguas indígenas pelo mundo - línguas nativas da América, África, Ásia e Oceania - comprovou que essas supostas "línguas primitivas", "dialetos", entre outros, como costumam a ser chamados, são muito mais complexas que as línguas indo-européias da atualidade, como o português, inglês, alemão, francês e várias outras. Thurston (1979) forjou os termos línguas esotéricas e línguas exotéricas que esclarece essa questão de maneria exemplar. As línguas esotéricas são línguas de alta complexidade estrutura, pois são usadas somente pelos indivíduos da mesma comunidade para se comunicarem entre si, como é o caso das línguas indígenas pelo mundo, já as línguas exotéricas são línguas menos complexas utilizadas para comunicação entre povos de mesma cultura e de diferentes culturas também, como é o caso de nossa língua e outras similares indo-européias. 

Vale lembrar, ainda, que língua franca é uma língua utilizada para comunicação entre diversos povos em siutação estável (sem nenhum com status superior a outro) que possuem línguas diferentes que impossibilitam o processo de comunicação, o caso de Timor Leste esta língua é a variedade Tétum-Praça.

Finalmente, o termo língua oficial consiste em língua, ou línguas, reconhecida(s) pelo Estado a ser utilizada pela comunidade para desempenhar todas as funções jurídico-administrativas e exercer a cidadania em geral, como ter acesso a educação, saúde, emprego, segurança etc. Em Timor Leste há duas línguas oficias: a língua portuguesa e o Tétum (a variedade Tétum-Praça). Língua de trabalho são línguas, ou língua, também reconhecida(s) pelo estado a ser utilizada somente em tarefas burocráticas principais (por isso chamada de "trabalho") como uma opção em comunidades multilíngues onde o falante pode não ter acesso, ou não conhecer, a(s) língua(s) oficial(is) do Estado. Em Timor Leste as línguas de trabalho são inglês e o bahasa indonesia.  

Fica aqui registrado minha indignação em relação a qualquer estudioso que por desconhecimento, falta de informação ou preconceito empregue os termos aqui citados de forma imprópria, pois isto somente tem o objetivo de prejudicar tanto a linguística per se, quanto denegrir os povos autóctones espalhados pelo mundo. Ainda, aqueles que não conheceme desejam ficar sem conhecer e ficam falando "coisas impróprias" por aí (ou seja, falando besteiras!) procurem evitar tantas gafes também, pois isso ficará feio (para não falar, ou escrever, outras palavras!) para quem as fala! Disso pode ter certeza!!! Já para aqueles que desejam se informar, recomendo a leitura de obras introdutórias à linguística e a consulta a dicionários como Crystal (1980) e Dubois (1995).

Referências:

Crystal, D. 1980. Dicionário de lingüística e fonética. Rio deJaneiro: Zahar.
Dubois, J. et al. 1995. Dicionário de lingüística. São Paulo: Cultrix.
Thurston, W. 1979. Processes of change in North-Western New Britain. Canberra: Australia National University. 


Friday, June 18, 2010

Ha'u Ko'alia Tetun! Eu Falo Português!


O livro intitulado Ha'u Ko'alia Tetun! Eu Falo Português! de autoria do Prof. João Cleto do Nascimento é um livro didático para ensinar o Tétum-Praça para falantes lusófonos (a capa da obra encontra-se ao lado) com um prefácio de minha autoria.

Esta obra merece destaque por vários motivos, entre eles: é o primeiro material sobre Tétum (ou qualquer outra língua de Timor) lançado em português do Brasil; nos últimos foi a única obra didática lançada em língua portuguesa; foi fruto de um projeto do autor de ensino de língua Tétum para estrangieros, ainda em andamento nos dias atuais.

No Brasil, as únicas obras publicadas sobre Timor Leste concentram-se em sua maioria nos estudos políticos que defendem certos interesses ideológicos que não valem a pena ser mencionados, assim como não é o objetivo deste post!

Já se falarmos sobre livros didáticos sobre a língua Tétum, em sua variedade Tétum-Praça, o livro mais recente é de Hull (1996), que ensina Tétum-Praça como língua estrangeira para falantes anglófonos. A única fonte anterior para o ensino de Tétum para falantes lusófonos é de Fernandes (1937). Desta maneira, podemos perceber que somente após mais de 70 anos é que surgiu uma fonte atualizada de referência para o ensino de Tétum-Praça para falantes lusófonos.

Vale mencionar também que o Prof. João Cleto do Nascimento reside em Timor Leste desde 2008 e está engajado em um projeto de ensino e elaboração de materiais didáticos sobre o Tétum-Praça. Ainda, como muitas atividades culturais e científicas de valor no Brasil, este projeto é particular do autor que somente recebe apoio institucional de vez em quando!

Recomendo a todos interessados em Timor Leste, em estudos linguísticos e em ensino de línguas a leitura do livro Ha'u Ko'alia Tetun! Eu Falo Português!

No próximo post eu darei uma breve explicação que parece muito pertinente para as questões linguísticas de Timor Leste sobre a terminologia relacionada à língua, dialeto, 'língua primitiva' (seja lá o que isso for...), língua franca, língua nacional, língua oficial e língua de trabalho.

P.S. Acrescento aqui a referência de Hull (2001), conforme João Paulo Esperança gentilmente sugeriu ao nosso blog, no comentário desse post. 
     
Referências:

Fernandes, A. J. (1937) Método prático para aprender o Tétum. Macao: Escola Tipográfica do Orfanato de Macau.

Hull, G. (1996) Mai kolia Tetun: a beginner's course in Tetum-Praça: the lingua franca of East Timor. North Sydney: Australian Catholic Relief and the Australian Catholic Social Justice Council.

_____. (2001) Manual de Língua Tétum para Timor Leste. Wollongong: University of Wollongong. 134p.

Thursday, May 27, 2010

Dili Institute of Technology website



A good website with available publications for download, a lot of usefull information on Tetun, and Tetun language courses for foreigners, in Dili. The link http://www.tetundit.tl/ will be available also at the left section of this blog Important Papers and Related Resources.  

Dili Institute of Technology is headed up by Catharina Willians-van Klinken, who has a list of several linguistic papers on Tetun-Praça and Tetun-Fehan varieties, several of them are available, as mentioned above, at the website section called Publications. There can be found didactic books as vocabularies, language manuals and course book, and linguistics articles related to Tetun registers, among others.

So, I invited everyone to check it out this website and see the good things for yourselves!!! 

P.S. Latelly, my posts are a little slow and I won't updated too much things! But I promise everyone that soon I will come back with more posts and with good stuffs as well!!!

    

Thursday, April 29, 2010

Reestruturação gramatical e as línguas de Timor Leste


As línguas de Timor Leste, além de mal descritas, também apresentam problemas em relação a suas origens e os processos de mudança linguística que sofreram. Muitas vezes são referidas como crioulos (Ethnologue 2009) e até pidgins (Hagège 2002 apud Hajek 2007), e os processos de mudança linguística como 'processo de crioulização' (Hull 2001). Em um trabalho recente, que apresenta um resultado preliminar de minhas pesquisas sobre o contato de línguas em território leste-timorense (Albuquerque 2010), há evidências suficientes para não usar tais termos citados acima, assim como se argumentar a favor da reestruturação parcial de algumas línguas de Timor Leste.

Dois modelos teóricos que são aplicáveis, em um primeiro momento, às línguas de Timor Leste são o de 'aquisição não-nativa' de McWhorter (2007) e o já mencionado 'reestruturação parcial' de Holm (2004). Mas, no entanto, exsitem poucos dados sobre a sócio-história dessas línguas, assim como poucas são as descrições linguísticas disponíveis.

Atualmente, debruço-me sobre este problema, procurando informações sobre a sócio-história das línguas de Timor Leste e também dados linguísticos para verificar nos contatos possíveis adstratos, superestratos e substratos e suas respectivas influências uns nos outros.  

Referências:

Albuquerque, D. B. Contatos lingüísticos em Timor Leste: mudanças e reestruturação gramatical. Comunicação apresentada ao VI Encontro da Associação Brasileira de Estudos Crioulos e Similares, Salvador, 2010.

Hagège, C. 2002. Morte E Rinascita Delle Lingue. Milão: Feltrinelli.

Hajek, J. 2007. Language Contact and Convergence in East Timor: The Case of Tetun Dili”. In A. Aikhenvald & R. Dixon (eds.). Grammars in Contact: A Cross-Linguistic Typology, p. 163-178. Nova York: Oxford University Press.

Holm, J. 2004. Languages in Contact. The Partial Restructuring of Vernaculars. Cambridge: CUP.

Hull, G. 2001. A Morphological Overview of the Timoric Sprachbund. Studies in Language and Culture of East Timor 4: 98-205, 2001.

Lewis, P. (ed.). Ethnologue: Languages of the World, Sixteenth edition. Dallas: SIL International, 2009. Versão online: http://www.ethnologue.com/

Mcwhorter, J. 2007. Language Interrupted: Signs of Non-Native Acquisition in Standard Language Grammars. Nova York: Oxford University Press.

Tuesday, April 20, 2010

Um blog de Linguística Cognitiva


Neste post, tenho objetivo de divulgar um novo blog de interesse da comunidade acadêmica, especialmente aos linguistas que acompanham este nosso blog de Linguística de Timor Leste.

O blog chama-se Cognitiva na Veia e é gerenciado pelo linguista Paulo Jefferson Pilar, doutorando da Universidade de São Paulo - USP, e o link é o que segue:
http://www.cognitivanaveia.blogspot.com/.

Fico muito feliz por essa iniciativa que, em minha opinião, deveria ser mais comum em nosso país, assim como nas diferentes sub-áreas da pesquisa em linguística. A minha postura em relação ao conhecimento é que este deveria ser divulgado e de fácil acesso para um grande número de pessoas. Isto, porém, não vem acontecendo, já que é cada vez mais comum a prática de concentração de conhecimento nas mãos de poucos e também outra prática nociva é a retenção de material e informação.

Então, ficam aqui meus agradecimentos ao linguista Paulo, juntamente com minhas congratulações e disponibilidade a esta bela iniciativa!
  

Monday, April 19, 2010

Equívocos e hipocrisias em abordagens de outras culturas!!!


Em um post recente sobre o programa Globo Ecologia ter Timor Leste como seu tema mencionei uma entrevista do repórter e comentei também sobre o despreparo e o desconhecimento que ronda a televisão e outros meios midiáticos.
(http://easttimorlinguistics.blogspot.com/2010/04/programa-globo-ecologia-em-timor-leste.html)   

Em um comentário a esse post, uma visitante de nosso blog tocou em uma questão interessante: como se aborda uma outra cultura. Ela fez o seguinte comentário (que reproduzo com sua autorização, caso não seja possível e queira retirar tal comentário, por favor, me avise):
   
São cada vez mais comuns, expressões como: “É uma história muito bonita, uma lenda, muito interessante, que revela uma cultura muito forte. ” ou “É um país pequeno, mas muito rico culturalmente”. Questiona-se, em princípio, se um território que se autoidentifica como Nação, seja ela qual for, tem culturas mais fortes e mais ricas. Se há intenção de elevar a Nação em paridade com outras, isto não ocorre, visto que dá margem à interpretação que possam existir culturas fracas e pobres.  

Além de ter sido mencionado o problema de se elevar uma cultura a um status superior, o que leva ao equívoco de se pensar que há culturas que sejam inferiores,  há outros problemas que considero sérios em relação a tal tipo de comentário e-ou abordagem de uma outra cultura. Entre eles menciono a hipocrisia que procura mascarar as misérias do mundo, no caso de Timor Leste a "cultura rica" está definhando por causa de disputas internas e pela desastrosa atuação internacional que é considerada como a salvadora de Timor Leste. É claro que a ajuda internacional de algumas entidades propiciou o desenvolvimento do país, mas atualmente ocorre o que eu chamo de elogio à pobreza: diversos estrangeiros que ganham salários milionários são elevados à imagem de verdadeiros heróis de Timor Leste simplesmente pelo fato de sua posição privilegiada social e financeiramente. Sem mencionar que muitos funcionários estrangeiros com esses salários milionários estimulam a economia do país (eu mesmo no período de 2008 e 2009 que morei em Timor Leste vi muito!!!) investindo nas pricinpais áreas do desenvolvimento econômico: boates, bebidas e prostituição!!!! Então, se a população leste-timorense é educada com o estrangeiro simplesmente o faz pelo fato de querer sair da pobreza que o país se encontra, mas isto é mascarado através de discursos hipócritas.

Ainda, tenho algumas palavras sobre a "cultura rica" de Timor Leste, que nada mais é do que um conjunto de traços da cultura material e imaterial de origem Austronésia que se encontra presente nas ilhas vizinhas, principalmente às pertencentes a Indonésia, como Larantuka, Molucas etc., e que possui ligeiras modificações devido ao fato de algumas ilhas terem sido povoados em períodos distintos, assim como umas apresentam ainda uma presença de origem papuásica e outras não. Como mencionei acima, tal cultura vem se perdendo por um conjunto de fatores (não culpo apenas a política internacional, já que a própria população nativa também é culpado). Termino este post citando o livro da antropóloga E. Traube (1986) que viveu entre os Mambae e analisou os rituais desse povo leste-timorense no início da década de 80 do século XX; naquela época ela chamou atenção, no prefácio de seu livro, para o fato de alguns povos já terem perdido seus traços culturais, pois queriam se tornar "civilizados" ou "urbanizados", como é o caso de Manatuto.

Para todo este problema não tenho uma solução, pois acho que não há e não depende somente de mim. O que venho deixar aqui registrado são alguns equívocos e a hipocrisia mencionados e me posicionar contra eles, fornecendo como uma solução parcial para isso que as pessoas sigam somente o bom senso! O que já é pedir demais...

Referência:

Traube, E. 1986. Cosmology and Social Life. Ritual Exchange among the Mambai of East Timor. Chicago: University of Chicago Press.  


Sunday, April 18, 2010

Palavras iniciais sobre o status do Galolen no século XIX


A língua Tétum sempre teve destaque na historiografia portuguesa a respeito de Timor Leste, tanto através de referências diretas, quanto de referências indiretas. Muitas dessas referências à língua, aos reis tetumófonos - como o rei de WeHali e o rei de Luca - , e aos reinos de Servião e Belos podem ser achados na coletânea de Artur Basílio de Sá, chamada Documetação para a História das Missões do Padroado Português do Oriente (1991-1996), em 12 volumes.  

Quando os portugueses foram expulsos de Lifau estabeleceram-se em Dili, mas também houve o estabelecimento de colégios católicos no atual distrito de Manatuto cuja língua Galolen é a língua materna predominate. Sá (1961) lista uma série de publicações do Pe. Manuel Maria Alves da Silva, datadas entre os anos de 1888 e 1905, que visavam ensinar a língua Galolen para os falantes de outras línguas, assim como ensinar a língua portuguesa para os falantes de Galolen.

Esse fato histórico é fundamental para se compreender melhor a natureza dos contatos linguísticos em Timor Leste, já que um dos argumentos sócio-históricos utilizados para uma suposta crioulização, ou pidgnização, da língua Tétum foi sua eleição pela administração portuguesa e pela igreja católica como língua franca. Esse argumento, então, prova-se falho, já que tal processo ocorreu também com a língua Galolen e não gerou nenhuma variedade de lingua franca, nem variedade crioula. Deve-se, desta maneira, recorrer a outros fatores sócio-históricos e anteriores ao comentado, como já fez Thomaz (2002), que em minha opinião até a atualidade apresentou os argumentos mais sólidos para a ascensão da língua Tétum como língua franca, entre eles a documentação historiográfica portuguesa, algumas evidências linguísticas e estudos toponímicos.

Ainda, recentemente apresentei argumentos de natureza linguística, em Albuquerque (2010), sobre a natureza das mudanças linguísticas em Timor Leste. Devido ao contato intenso entre algumas línguas leste-timorense, há entre estas um grupo que sofreu uma reestruturação gramatical, como o Mambae, Tokodede e o Tétum-Praça.

Com o que comentei brevemente, podemos chegar a uma conclusão: há muito a ser estudado sobre as questões a respeito do contato de línguas em Timor Leste.

Referências:

Albuquerque, D. B. Contatos lingüísticos em Timor Leste: mudanças e reestruturação gramatical. Comunicação apresentada ao VI Encontro da Associação Brasileira de Estudos Crioulos e Similares, Salvador, 2010.

Sa, A. B. 1961. Textos em teto da literatura oral timorense. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar.
_____. 1991-1996. Documentação para a História das Missões do Padroado Português do Oriente. Fundação Oriente/Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, vol. 1-12.

Thomaz, L. F. 2002. Babel Loro Sa’e: O Problema Lingüístico de Timor Leste. Lisboa: Instituto Camões.

Saturday, April 17, 2010

Programa Globo Ecologia em Timor Leste

O programa da rede globo, chamado Globo Ecologia, que vai ao ar todo sábado às 06:50h teve neste sábado, 17 de Abril, o tema Timor Leste. 

O repórter do programa, Pablo de Moura, foi entrevistado pelo sítio Zine Cultural e o link da entrevista é o seguinte: http://www.zinecultural.com/zine/noticias/noticias.php?noticia=7696. Na entrevista, o repórter falou informações básicas sobre a cultura leste-timorense, como o mito de origem da ilha, que tem como base o crocodilo, chamado às vezes de lafaek ai-knanoik 'lenda do crocodilo'. Ainda, o repórter falou sobre a biodiversidade, a importância da igreja católica e mantém a 'crença popular' de achar que Timor Leste é repleto de diferentes dialetos, cerca de 30 deles, quando na realidade o número encontra-se entre 16 e 18 línguas, como já foi comentado em um dos posts iniciais deste blog:

A iniciativa do programa e do repórter são louváveis, pois ajuda a divulgar Timor Leste para o mundo, tanto de forma acadêmica - já que o repórter chama atenção para questões relativas à biodiversidade, à história, à cultura e religião leste-timorense - como de forma popular, pelo fato das belezas do país e da recepção dos timorenses aos estrangeiros serem amigáveis e convidativas ao turismo (na minha opinião uma área que deveria ter mais investimento do governo, pois é a que promete arrecadar mais receita para os cofres públicos e também gerar empregos e maior renda para a população local).

Lamentável, porém, é este tipo de iniciativa ser única e pouco produtiva. O repórter que passou aproximadamente 30 dias em Timor Leste não possui um conhecimento acadêmico exaustivo a respeito de Timor Leste, conforme foi comentado acima, além do que uma série de pesquisadores que necessitam de auxílios para pesquisa em Timor Leste não o recebem dos órgãos federais, nem da iniciativa privada, e quando recebem, mal conseguem cobrir os gastos da pesquisa com a verba recebida. 

Fica aqui registrado, então, meu elogio e, ao mesmo tempo, minha crítica em relação à postura de certas empresas, que se realmente desejassem ajudar algum país o faria de forma diferente, auxiliando pesquisadores que pudessem contribuir de forma efetiva aos diversos setores interessados: o mundo acadêmico, seus investidores, seu objeto de estudo e o conhecimento em si (que nenhum dinheiro pode comprar).  

Friday, April 09, 2010

We have achieved more than 1000 visits!!!

I thank you all visitors that colaborate reading the posts writen in this blog!

We had more than 1000 visits from 47 different countries. I hope that I can count on you all to continue your constant visits!!! And remember that this is your space too, due to the fact that I accept suggestions, all of you can find me on my e-mail: albuquerque00@hotmail.com and you can post your commets as well.

If you have any problem with Portuguese language you can check ConveyThis Translator at the middle left of this blog.

Thank you all again and stay put for my future posts!!!
      

Mais de 1000 visitas!!!

Este post é para agradecer a todos aqueles que já visitaram o blog e especialmente para os professores e pesquisadores que o acessam constantemente.

Nosso blog alcançou o número de mais de 1000 visitas de 47 países diferentes e eu somente tenho a agradecer a todos vocês!!!

Espero que possa contar com a visita de todos vocês, assim como na divulgação deste blog, que é um espaço para discussão e divulgação dos estudos leste-timorenses.

Continuem visitando que futuramente escreverei mais posts interessantes e com mais informações sobre as línguas de Timor Leste!
 

Wednesday, March 03, 2010

Pré-história, história e contatos lingüísticos em Timor Leste


Outro artigo de minha autoria, denominado Pré-história, história e contatos lingüísticos em Timor Leste, já está disponível on-line no seguinte endereço: https://www.academia.edu/1750300/Pre-historia_historia_e_contatos_linguisticos_em_Timor_Leste.

Este artigo foi publicado no número atual (número 6) da Revista Domínios de Lingu@guem dedicado à lingüística histórica. A revista completa está disponível no endereço:
Neste artigo analiso possíveis aplicações do método histórico-comparativo no estudo das línguas de Timor Leste e suas possíveis contribuições e limitações. Discorro brevemente sobre outros ramos do saber que podem contribuir para um melhor conhecimento do passado dos povos leste-timorenses, como a história e a arqueologia.

Abaixo está o resumo deste artigo:

"Este artigo tem vários objetivos, entre eles: discutir algumas questões teóricas sobre o método histórico-comparativo e sua aplicação nos estudos das línguas de Timor Leste. Para tanto, após uma breve apresentação das línguas leste- timorenses e algumas considerações teóricas sobre a lingüística histórica (2), discutir-se-á sobre a pré-história (3) e o período histórico (4), assim como os diversos contatos lingüísticos ocorridos na ilha durante os períodos citados."


Monday, March 01, 2010

Contato de Línguas em Timor Leste


Já está disponível on-line no sítio da ABECS (Associação Brasileira de Estudos Crioulos e Similares) no seguinte endereço http://abecs.fflch.usp.br/sites/abecs.fflch.usp.br/files/upload/paginas/ResumosVIAbecs.pdf#overlay-context=quem o resumo da comunicação Os contatos linguísticos em Timor Leste: mudanças e reestruturação gramatical de minha autoria.

Nesta comunicação, que será efetuada no VI Encontro da ABECS nos dias 24, 25 e 26 de março, falarei sobre os diferentes tipos de mudança que as línguas de Timor Leste sofreram com o contato.

Segue abaixo o resumo do trabalho:

"A presente comunicação intenta analisar os contatos linguísticos que ocorreram em Timor Leste, assim como as mudanças - e possível reestruturação gramatical em alguns casos - que as línguas nativas sofreram com esses diferentes contatos. Ainda, as línguas austronésicas e papuásicas leste-timorenses sofreram modificações em graus distintos devido ao contato: mudanças pesadas e possível reestruturação gramtical, como o Tétum, Mambae e Tokodede, ou mudanças leves, como o Baikenu, Makasae e Fataluku."