Sunday, July 11, 2010

Sobre as consoantes palatais em Tetun Prasa


As consoantes palatais não fazem parte do inventário fonológico das línguas de origem austronésicas. Nas línguas de Timor Leste, elas são de origem lusófona e entraram somente através dos empréstimos lexicais para o Tetun Prasa, e, por sua vez, do Tetun Prasa para as demais línguas.

Em uma análise fonológica recente que fiz do Tetun, seguindo uma abordagem ecolinguística (Albuquerque, em preparação), verifiquei que essas consoantes palatais, a saber: ʃ, ʒ, nhlh (não consegui formatar as duas últimas fontes do IPA para o blog, por isto represento pela grafia), não são produtivas na língua, não aparecendo em nenhuma palavra nativa, assim como não são realizadas pelo falante leste-timorense.

Os fones palatais, como classifico-os, ʃ, ʒ, nh e lh são realizados /s/, /z/, /n/ e /l/ respectivamente. Dessa forma, limitam-se ao léxico lusófono emprestado e relativo a conceitos culturais e modernos exteriores à cultura tetumófona, como em vocábulos:

xá, xapeu, xave;
janela, justisa, jornál;
bañu, señór, viziñu;
evanjellu, jullu, relijiaun.

Logo, não há evidências linguísticas suficientes para classificá-los como fonemas que fazem parte do inventário fonológico da língua Tetun, em sua variedade Tetun Prasa, ou Tetun Dili, como vem sendo feito na recente tradição gramatical do Tetun Prasa: Hull (2002), Hull e Eccles (2001) e Williams-van Klinken, Hajek e Nordlinger (2002).

Referências: 
 
ALBUQUERQUE, D. B. (em preparação). Ecofonologia da língua Tetun: um caso de contato e adaptação.   
 
HULL, G. 2002. Dili Tetum. Sydney/Dili: Sebastião Aparício da Silva Project/Instituto Nacional de Linguística/Universidade Nacional de Timor Lorosa’e.
 
HULL, G.; ECCLES, L. 2001. Tetum Reference Grammar. Sydney/Dili: Sebastião Aparício da Silva Project/Instituto Nacional de Linguística/Universidade Nacional de Timor Lorosa’e, 2001. (Tradução para o português: Gramática da Língua Tétum. Lisboa: LIDEL, 2004).
 
WILLIAMS-VAN KLINKEN, C., HAJEK, J. e NORDLINGER, R. Tetun Dili: A grammar of an East Timorese language. Canberra: Pacific Linguistics, 2002.
 

2 comments:

João Paulo Esperança said...

Não concordo consigo. Os fonemas palatais mencionados são realizados de forma diferente de acordo com os sociolectos dos falantes de tétum-praça. O meu nome é João, há imensos timorenses com esse nome, e são uma minoria os que pronunciam Zoão ou, por influência do indonésio, Djoão. Há velhinhas falantes de tétum nas montanhas que pronunciam ['duan], com a sílaba tónica na primeira sílaba.
A minha mulher é uma timorense da geração educada durante a ocupação Indonésia e pronuncia ʃ, ʒ, nh e lh. A pronúncia varia, como lhe disse, de acordo com diversos factores, mas a realização /s/, /z/, /n/ e /l/ é considerada por muitos falantes de tétum como socialmente desprestigiante.
Nas telenovelas brasileiras há frequentemente personagens que dizem coisas como "Ó xente" - não poderíamos usar isso como argumento para dizer que o ʒ não faz parte do inventário fonológico do português do Brasil, pois não?

Davi B. de Albuquerque said...

Caro João Paulo,

desculpo-me pela demora a responder seus comentários, que sou muito grato a eles!

Como afirmei no post, o trabalho ainda está em preparação, sendo bem-vindas as observações.

Ainda, afirmo o seguinte:

- de acordo com a fonologia estruturalista os pares mínimos e pares análogos das consoantes palatais em Tetun não existem, ou possuem apenas um ou outro par;

- em relação à sociolinguística variacionista, as consoantes palatais são aquelas que mais apresentam variação. Em um artigo que apresentarei este mês em um congresso, afirmo que em meus dados a realização das palatais em falantes escolarizados chega a 70%, enquanto que em falantes não escolarizados obtive registros desde 23% até nulo;

- de uma perspectiva ecolinguista, posso afirmar que a língua Tetun é uma espécie que facilmente se adapta ao meio ambiente, por isso vem sobrevivendo aos sucessivos contatos de línguas e/ou dominações. Dessa forma, penso que antes da invasão indonésia as palatais estavam a ser introduzidas em Tetun, durante a invasão o meio ambiente modificou e as palatais se perderam, atualmente com a língua portuguesa a regressar em Timor Leste, as palatais estão novamente a ser incorporadas como um novo processo de adaptação.